Quase dois anos após a 1ª mostra, os zumbis carcamanos
voltam para aterrorizar os espectadores recifenses onde tudo começou: no Cinema
da Fundação Joaquim Nabuco. A Spaghetti Zombies chega a sua 3ª. edição e o
evento busca apresentar a famigerada produção de um ciclo do cinema popular
italiano responsável por alguns dos melhores e piores exemplares deste
subgênero do cinema de horror: o “filme de zumbi”. Podemos dizer que foi o explosivo sucesso de
“O Despertar dos Mortos” de George A. Romero na Itália, certamente influenciado
pela participação criativa de Dario Argento na produção, roteiro e escalação do
grupo Goblin para a trilha sonora do longa, que gerou a grande quantidade de
filmes do subgênero produzidos neste país para o mercado local e internacional,
a partir de “Zumbi 2 – A Volta dos Mortos” (1979), de Lucio Fulci.

Com o alucinado “Demons – Filhos das Trevas” (1985) como
longa de abertura na sessão do Cineclube Dissenso deste sábado (15/02), às
13h50, podemos dizer que a 3ª. edição da Spaghetti Zombies já diz a que veio.
Depois do filme, debate com o curador Osvaldo Neto, que deu prioridade aos
títulos com uma carga maior de entretenimento intencional e também
não-intencional, claro. Os demais longas
da Mostra serão exibidos no período de 17 a 21 de fevereiro na Sala João
Cardoso Ayres a partir das 19h30.
A programação é composta de longas do início, meio e final
deste ciclo, cujos títulos vão do sublime ao bom e velho “pé na jaca” de uma
tranqueira dirigida por Bruno Mattei. Falando nele, é certo dizer que os filmes
de zumbis italianos fizeram com que realizadores, como o próprio Mattei,
Claudio Fragasso, Lamberto Bava, Lucio Fulci e Umberto Lenzi (todos
representados nesta 3ª. edição), superassem limites em matéria de violência e
nudez gratuitas. Preparem-se para obras que não passam de meras desculpas para
encher a tela do cinema com mortes horripilantes e cenas que chegam a ser
delirantes de tão surreais, como o antológico duelo entre um zumbi capoeirista
e um tubarão no já citado “Zumbi 2” (1979), o filme que marcou o início deste
ciclo.
Conhecer os filmes de zumbis realizados na Itália é também
conhecer uma importante parte da história do horror cinematográfico deste país
que continua a influenciar e a apaixonar diferentes gerações de cinéfilos e
realizadores em todo o mundo. Boa diversão.
Edições anteriores:
Através do inestimável apoio do Cinema da Fundação Joaquim
Nabuco e do Cineclube Dissenso, tivemos a 1ª. sessão da Mostra Spaghetti
Zombies em 19 de março de 2011. Neste dia, exibimos o filme “Pelo Amor e Pela
Morte” (1996), de Michele Soavi, num belo pontapé inicial para essa mostra que
foi um sucesso de público entre os moradores e visitantes do Recife ao longo
dos próximos dias até a sua conclusão, na sexta-feira 25/03 com “Burial Ground
– Noites de Terror” (1981). Já em
outubro de 2012, tivemos a oportunidade de levar a Spaghetti Zombies para São
Paulo em parceria com a FlyCow Produções e a Prefeitura da Cidade de São Paulo
na Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Corrêa onde apresentamos a
Spaghetti Zombies 2.0 numa versão extendida da mostra apresentada no Recife.
3a. MOSTRA SPAGHETTI ZOMBIES
PROGRAMAÇÃO
15/02: “Demons – Os Filhos das Trevas” (Demoni, 1985) –
13h50
Direção: Lamberto Bava
Roteiro: Dario Argento, Lamberto Bava, Franco Ferrini,
Dardano Sacchetti.
Elenco: Urbano
Barberini, Natasha Hovey, Karl Zinny, Fiore Argento, Geretta Geretta, Bobby
Rhodes e Michele Soavi.
Um misterioso homem mascarado (um jovem Michele Soavi,
também assistente de direção do longa) distribui ingressos gratuitos para um
grupo de pessoas – pasmem, até mesmo um cego - prestigiarem a reabertura de um
antigo cinema. Mal sabiam eles que o filme de horror exibido no local também
passará a ser realidade com muitos dos espectadores lutando pela sua sobrevivência
contra o ataque de outras pessoas que foram transformados em horrendas
criaturas.
Tentativa bem sucedida do então produtor Dario Argento de
fazer sucesso no mercado norte-americano com uma produção inteiramente
italiana, DEMONS é o longa mais famoso de Lamberto Bava, filho do mestre Mario
Bava. Argento co-escreveu o roteiro e fez com que a trilha fosse composta por
Claudio Simonetti e repleta de sucessos do Rock e do Heavy Metal dos anos 80.
Podemos escutar de Accept, Saxon e Motley Crue a Rick Springfield e Billy Idol
enquanto os humanos tentam sobreviver aos ataques dos monstros.
Após a sessão, debate com Osvaldo Neto, curador da mostra,
na sala João Cardoso Ayres a partir das 15h45.
17/02: “Zumbi 2 – A Volta dos Mortos” (Zombi, 1979) – 19h30
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Elisa Briganti e Dardano Sacchetti
Elenco:
Tisa Farrow, Ian McCulloch, Richard Johnson, Al Cliver, Auretta Gay e Olga
Karlatos.
Um zumbi é encontrado a bordo do barco de um famoso
cientista. Preocupada, a sua filha parte com o namorado para a ilha onde o
cientista conduzia estranhos experimentos. Lá, eles descobrem que o local foi
tomado por uma epidemia que transforma os habitantes locais em zumbis
aparentemente indestrutíveis.
Clássico obrigatório do mestre Lucio Fulci, “Zumbi 2” foi
lançado pelos seus distribuidores como uma continuação não oficial e sem
qualquer relação com “O Despertar dos Mortos” de George A. Romero. Mas isso não
diminui em nada o merecido culto que este grande obra possui entre os
admiradores do gênero. Destaque para a marcante trilha de Fabio Frizzi e os
incríveis efeitos de Gianetto de Rossi. Uma cena em particular deve fazer com
que boa parte do público feche os olhos ou vire o rosto durante a exibição.
18/02: “Nightmare
City” (Incubo sulla città contaminata, 1981) – 19h30
Direção: Umberto Lenzi
Roteiro: Antonio Cesare Corti, Luis María Delgado, Piero
Regnoli
Elenco: Hugo Stiglitz, Laura Troetter, Maria Rosaria
Omaggio, Francisco Rabal, Eduardo Fajardo e Mel Ferrer.
Acidente nuclear transforma um famoso cientista em
morto-vivo que cotamina toda a tripulação de uma aeronave. Ao aterrizar em um
aeroporto europeu, os zumbis descontrolados escapam, espalhando terror e
contaminando todos aqueles que caem em suas garras. Diante da ameaça de uma
epidemia em massa, o repórter Dean Miller (Hugo Stiglitz) tenta
desesperadamente salvar sua esposa e alertar a população sobre a terrível
verdade.
Em entrevistas, Lenzi afirma que não existem zumbis em
“Nightmare City”, mas pessoas infectadas. De fato, as criaturas deste filme são
bem diferentes dos zumbis que costumamos ver: eles não apenas atacam as pessoas
com os dentes, mas também com facas, machados e disparos de metralhadoras!! O
longa é um divertidíssimo exemplar do ciclo que se beneficia da boa mão do
diretor de obras notórias como “Almost Human”, “Cannibal Ferox” e ”Eyeball” que
mantém um ritmo acelerado durante todo o seu tempo de duração.
Pessoas que se trasformam em zumbis ao serem infectadas por
meio de radiação... bonito, seu Danny Boyle. Bonito.
19/02 – “Predadores da Noite” (Virus, 1980) – 19h30
Direção: Bruno Mattei e Claudio Fragasso (cenas adicionais)
Roteiro: José María Cunillés, Rossella Drudi, Claudio
Fragasso e Bruno Mattei
Elenco: Margit Evelyn Newton, Franco Garofalo, Selan Karay,
José Gras e Gabriel Renom
Em uma instalação militar na Nova Guiné, um acidente libera
um gás tóxico na atmosfera capaz de transformar seres vivos em zumbis. Uma
equipe de elite é enviada ao local para acabar com os zumbis e eliminar os
vestígios da operação militar conhecida apenas como “Operação Doce Morte”.
Um filme de Bruno Mattei. Se você já tem alguma
familiaridade com esse nome, já sabe que Mattei é a resposta macarrônica ao Ed
Wood e que muitos de seus filmes são verdadeiras comédias involuntárias.
“Predadores da Noite” é um espetáculo da mais pura picaretagem (e por quê não?)
criatividade características deste saudoso realizador, falecido em 2007. É de
uma ingenuidade contagiante ver a inserção na montagem de cenas de
documentários para convencer o espectador de que os personagens estão nas
selvas da Nova Guiné, ainda que o filme tenha sido rodado na Espanha e que a
diferença da qualidade do vídeo entre as duas filmagens seja bem gritante.
Imperdível para os fãs de uma tranqueira.
20/02 – “A Terceira Porta do Inferno” (Oltre la morte, 1989)
– 19h30
Direção: Claudio Fragasso
Elenco: Jeff Stryker (creditado como Chuck Peyton), Candice
Daly, Massimo Vanni, Jim Gaines e Nick Nicholson
Jenny (Candice Daly) volta para a ilha nas Filipinas em que
os seus pais foram mortos. Eles trabalhavam numa cura para o câncer e,
acidentalmente, acabam despertando os mortos ao enfurecerem um sacerdote vodu.
Um grupo de mercenários acompanha a mulher que se encontra com outros
pesquisadores na ilha. Esse bando de
idiotas termina por despertar – mais uma vez - os zumbis filipinos sedentos por
sangue e tripas.
Em time que ganha, não se mexe. Esse certamente deve ter
sido o pensamento do produtor Franco Gaudenzi quando convocou Claudio Fragasso
– então roteirista e braço direito de Mattei desde o início dos anos 80 – e sua
esposa Rossella Drudi para rodarem “A Terceira Porta do Inferno” nas Filipinas,
um filme de zumbis de baixíssimo orçamento produzido com a intenção de
recuperar as perdas financeiras com “Zombie 3”,
podreira que garantiu uma hilária e inesquecível sessão na 1ª. edição da
Spaghetti Zombies. Esse longa não fica muito atrás em matéria de qualid... opa,
ruindade.
“A Terceira Porta do Inferno” é bem lembrado por conta da
presença de Jeff Stryker no elenco, um astro de pornô gay que tentou carreira
no cinema ‘legítimo’ com esse filme e uma participação em “Amore Sporco” (aka
“Dirty Love), versão exploitation de filmes como “Dirty Dancing”, “Flashdance”
e “Footloose” dirigida pelo Joe D’Amato. Fragasso e Drudi também são os
responsáveis por “Troll 2”, outra pérola da ruindade que gerou um
simpaticíssimo documentário chamado “The Best Worst Movie.” Somente para os
corajosos.
21/02 – “Noite Maldita” (Black Demons, 1991) - 19h30
Direção: Umberto Lenzi
Roteiro: Olga Pehar
Elenco: Keith Van Hoven, Joe Balogh, Sonia Curtis, Felipe
Murray e Juliana Teixeira
Kevin, Dick e Jessica são três jovens americanos que viajam
para o Rio de Janeiro a fim de estudar o samba (!!!!), mas Dick se sente
fortemente atraído pela macumba e o vodu. O rapaz acaba assistindo a um ritual
executado num terreiro escondido no meio do mato (!!!) e termina possuído pela
magia negra. Dick terminará despertando seis escravos negros que foram
brutalmente assasinados durante o período da colonização portuguesa e cujos
espíritos vingativos clamam pela morte de seis pessoas brancas.
Talvez o filme mais curioso para boa parte dos espectadores
desta 3ª. Spaghetti Zombies, o pouco visto “Noite Maldita” foi realmente
filmado no Brasil com equipe e elenco internacional. Algo que diferencia esse longa de grande
parte dos outros títulos do ciclo é o fato dele ter sido rodado com som direto.
Nota-se o carregado sotaque dos atores brasileiros que precisaram dizer todas
as suas falas em inglês, isso sem falar dos típicos diálogos nas produções estrangeiras
feitas em nosso país onde os personagens nativos tentam misturar inglês com
português. Enfim, por conta desta e de outras incongruências que acontecem ao
longo da narrativa, não existe nada de muito aterrorizante neste filme do
Lenzi. O diretor termina preferindo ir por um caminho bem seguro, sem nunca
aproveitar para tirar um sarro e ser politicamente incorreto com a trama. Poxa
vida, temos seis escravos negros que querem matar seis branquelos!! Spike Lee
teria feito uma festa com esse roteiro.
Curiosidade: Lenzi aproveitou a estada no Brasil para
realizar um outro filme, desta vez em Manaus. Trata-se de “Operação Golden
Scorpion”. Uma fita de ação e aventura estrelada por David Brandon (o Calígula
de “Calígula 2 – A História Não Contada”, do Joe D’Amato) e pelo nosso Cecil
Thiré (isso mesmo, você não leu errado) como o bandidão principal.
Caso você queira saber mais sobre “Operação Golden
Scorpion”, “Noite Maldita” e mais outros filmes que fazem/fizeram parte de
todas as edições da Spaghetti Zombies no sensacional blog do jornalista e
pesquisador Felipe M. Guerra, o
Filmes Para Doidos. Felipe disseca os longas com direito a
SPOILERS sobre as narrativas. Ou seja, fica a dica caso você já tenha visto os
filmes ou não se importe com uma ou outra surpresa das histórias sendo
“estragadas”.
AVISO: Uma galinha tem a sua cabeça cortada durante a cena
do ritual de magia negra em “Noite Maldita”. Caso você não suporte assistir a
imagens como essa, respeitamos a sua decisão em não comparecer à exibição do
filme. Obrigado.