Houve uma pequena confusão nas minhas últimas falas. Usei alguns termos quando perguntado das características do gênero (gore, slasher, o que era um filme trash etc.) e exemplifiquei. Entrevista feita em sua maior parte pelo telefone, já estou ficando meio traumatizado com elas... é a segunda vez que isso me acontece! (risos). São coisas da pressão que todo jornalista encara quando tem de fechar um texto o mais rápido possível. Mas a matéria não deixa de ser bacana.
Obrigado, Ingrid! Me surpreendi demais com seu interesse e curiosidade. Conte comigo sempre. :)
O Clube do HorrorPublicado em 28.03.2011
Eles cresceram tomando sustos diante da TV – e adorando isso –, não se importando se é uma produção trash ou um clássico
Ingrid Melo
imelo@jc.com.brSe você é daqueles que passa mal só de lembrar do interessantíssimo remake de A noite dos mortos vivos (Tom Savini, 1990) que tanto assombrou a sua Sessão da tarde, é melhor abrir os olhos com o seu vizinho, bater a porta e fechar o trinco. E o espanto aqui é que, apesar de ser pouco exaltado por críticos e estudiosos, tem muita gente fã de cinema que é fanática pelo gênero do terror e não troca um Lúcio Fulci por nenhum Woody Allen.
É o caso de Lucas Freire, estudante do terceiro período de Cinema na UFPE, que ainda criança começou a se interessar pelos sustos que tomava em frente à tevê. “Adorava assistir às sessões do Cinema em casa, que passavam à tarde no SBT. Os filmes A bolha assassina (Chuck Russell, 1988), O monstro do armário (Bob Dahlin, 1986), e o ótimo O ataque dos tomates assassinos (David Denneen, 1978) marcaram época para mim”, conta.
Aos 12 anos, Lucas saiu decidido de casa e foi à locadora em busca de O exorcista – Versão do diretor (William Friedkin, 2000), mesmo sabendo que o filme era para maiores de idade “Tinha visto cenas na televisão de Regan (Linda Blair) descendo as escadas de costas. Fiquei muito curioso e não via a hora de assistir. O resultado foi uma semana com a sensação de que o Pazuzu (o demônio do longa) era a minha sombra”, diverte-se.
A mania de perseguição também atingiu Caio Cagliani, colega de Lucas, quando mais novo. Outro fã do paracinema, Caio começou sua aventura pelo mundo do horror com O brinquedo assassino (Tom Holland, 1988). “Trancava as bonecas da minha irmã no armário, pois tinha certeza de que iam me matar”, revela.
Segundo pensa o estudante, o contato com filmes de terror começa ainda na infância devido ao interesse da criança pelo proibido. “Você não deve assistir aquilo, então sente um desejo arrebatador de fazê-lo”, teoriza. Há, também, a pressão dos amigos. “Na escola, era quase uma prova de coragem: ‘Ah, você já viu tal filme?’ e o desafio estava feito, você ia ter que assistir para não ficar como manhoso”, recorda.
De acordo com o especialista em filmes de horror Osvaldo Neto, editor do blog Vá e Veja (
http://blog.vaeveja.com) e colaborador de sites como o
Boca do Inferno, o que chama a atenção do público é o ar fantástico que permeia essas produções. “O meu interesse por cinema se deu com Gremlins (Joe Dante, 1984). Foi a produção que me fez sentir que estava diante de uma arte onde tudo era possível”, afirma.
E isso é percebido desde os primórdios do segmento. Drácula (Tod Browing, 1931), considerado um marco no cinema de horror por estimular a produção de filmes desta linha – no mesmo ano a Universal Pictures lançaria Frankenstein, de James Whale – já anuncia o ar surreal com um homem que vira morcego. O próprio Frankenstein abusa do ar fantástico com um monstro criado em laboratório que se volta contra o seu criador.
Osvaldo acredita que o gênero é o que possui maior liberdade de ousadia e que isso fascina tanto realizadores quanto consumidores do produto. “Nós estamos falando de um cinema diferente e complexo, com possibilidades infinitas de realização, em orçamentos de qualquer tamanho”, ressalta.
E a prova se dá quando assistimos a O ataque dos zumbis dançarinos 2, que conta com a participação de Lucas e Caio, como diretor de arte e ator, respectivamente. O curta é resultado de uma disciplina cursada por eles na faculdade e conta a história de pessoas que se tornam zumbis ao escutarem suingueira. “O filme foi feito bem no espírito do ‘cinema trash-independente-universitário’. Nenhum orçamento, pouco tempo e muita disposição. A gente se reuniu num domingo, na segunda o roteiro estava escrito, na terça gravamos as internas, na quinta gravamos as externas e no final de semana foi feita a montagem”, conta Lucas.
Aliás, falta de orçamento é o que mais contribui para que o filme de horror permaneça na marginalidade em quase todo o mundo – o gênero é tão desprezado pela Academia que Hollywood criou o Scream Awards para fazer coro ao Saturn Award, lançado por Donald Reed em 1973 com o intuito de mostrar que o paracinema não tem que ser, necessariamente, trash. “Há muitos filmes bons que seguem essa linha. Filmes que podem estar em qualquer sessão de arte. Pelo amor e pela morte (Michele Soavi, 1995), por exemplo, é um filme excelente, Deixa ela entrar (Tomas Alfredson, 2008) foi super elogiado”, defende Osvaldo.
Segundo ele, há uma estigmatização do paracinema devido a sub-gêneros como o “gore” e “splatter”, em que a violência é explícita e/ou ocorre de maneira exagerada. Dificilmente se pensa em filmes como o sádico e inteligente À meia noite levarei sua alma (José Mojica Marins, Zé do Caixão, 1963), que, ao mesmo tempo em que é underground e assustador, vale-se de um terror psicológico da mais elevada estirpe. “Há também uma referência muito recorrente aos filmes do gênero ‘slasher’, que se caracterizam por envolver assassinos em série e foram muito popularizados pelo cinema americano. Eles são trashes por princípio, e não devem ser menosprezados por isso, mas são apenas um segmento”, acrescenta.
Todavia, não importa a subclassificação, o que faz bom o cinema de horror é o ponto que o unifica: o desconforto que causa em quem assiste. O resultado pode ser gargalhadas, susto e até mesmo choro, mas sempre será permeado pelo medo. E não há nada mais fascinante. “É como se existisse um jogo entre o espectador e o filme. Você paga pelo ingresso, entra na sala de cinema sabendo que aquilo ali vai te causar medo, sustos e tudo o mais, mas mesmo assim isso te atrai. É uma certa atração pela repulsa, ou algo por aí...”, tenta definir Lucas. E é bem por aí.