sábado, dezembro 24, 2016

O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS (Welcome to Hard Times, 1967)


Me deparei com o título desse curioso western com direção e roteiro de Burt Kennedy meses atrás durante uma busca por filmes norte-americanos do gênero realizados nos anos 60. "O Homem com a Morte nos Olhos" era completamente desconhecido para mim até então, apesar do elenco e de seu diretor. Kennedy é mais conhecido pelos seus faroestes cômicos ("Uma Cidade Contra o Xerife") e por seu trabalho como roteirista, inclusive em 4 dos sete longas do ciclo Ranown, a parceria do realizador Budd Boetticher e do astro Randolph Scott: "Sete Homens Sem Destino", "O Homem que Luta Só", "Resgate de Bandoleiros" e "Cavalgada Trágica". Outro trabalho do Kennedy que não é tão conhecido e que posso destacar é "Gatilhos em Duelo" (Six Black Horses), estrelado por Audie Murphy, Dan Duryea and Joan O'Brien. Um ótimo western B. 

Só que "O Homem com a Morte nos Olhos" não apenas é diferente de todos esses filmes mencionados acima como também bate de frente contra tudo o que esperávamos dele. O mundo estava mudado em 1967 e o western - assim como ocorreu com vários outros gêneros cinematográficos - passava por uma grande transformação. 

No ano de 1962, Sam Peckinpah nos entregou aquele que deve ser o filme-testamento do western romântico americano, "Pistoleiros do Entardecer" (Ride the High Country), que já concedia uma morte lenta e majestosa para o Velho Oeste e seus míticos personagens muitos anos antes de Sergio Leone lançar "Era Uma Vez no Oeste". E foi de Leone que veio um filme estrelado por um então jovem ator chamado Clint Eastwood cuja fama se restringia ao seu papel em um seriado de TV chamado "Rawhide". Estamos falando do explosivo "Por um Punhado de Dólares" (For a Fistful of Dollars), cuja influência foi imensurável. John Sturges ("Sete Homens e um Destino") não poupou doses elevadas de uma violência mais realista em "A Hora da Pistola" - também de 1967 - a sua continuação para o sucesso "Sem Lei e Sem Alma", estrelada por James Garner como Wyatt Earp e Jason Robards como Doc Holliday.

Adeus, romantismo. Olá, cinismo e violência. 


Adaptado do romance de estréia do autor E. L. Doctorow (que também ganhou outras adaptações de seus livros para o cinema como "Na Época do Ragtime" e "Billy Bathgate"), "O Homem com a Morte nos Olhos" é um legítimo filme de transição do gênero. Os seus primeiros 20 minutos são nada menos que excelentes. Temos a chegada d'O "Homem de Bodie" na então pacata cidade de Hard Times. Um impressionante Aldo Ray interpreta esse homem que não faz nada além de bater, estuprar, matar, destruir e rir muito enquanto faz tudo isso. O personagem não possui uma mísera fala no longa inteiro e subtende-se (na opinião deste que vos escreve) que ele seja uma encarnação do Mal.

É fácil de compreender o porque desse filme continuar despertando a ira dos fãs mais puristas e românticos de faroeste. De largada, o 'Prefeito' Will Blue revela-se um sujeito um tanto covarde e egocêntrico logo em seus primeiros diálogos, mesmo adotando uma postura mais justa depois do vilão destruir Hard Times por completo. Detalhe: Will é interpretado por ninguém menos que Henry Fonda, que praticamente só interpretou personagens fortes, íntegros e corajosos em sua filmografia do gênero.

Mesmo que a sua carreira não estivesse mais no auge, não era comum que um ator como o Fonda que possuía essa imagem construída por décadas e décadas de atuação corresse riscos desse tipo. Estamos falando do homem que interpretou um jovem Abraham Lincoln para John Ford. Só escalando alguém do porte de Fonda para convencer o espectador de que esse problemático personagem seria capaz de fazer com que os sobreviventes (além dele próprio, claro) se empenhem na reconstrução da cidade. Will também demonstra compaixão ao preservar a honra de Molly (Janice Rule), a única prostituta sobrevivente do ataque do 'Homem de Bodie' ao Saloon, quando assume um relacionamento de aparências com ela diante dos novos habitantes que chegarão ao local.



E são esses outros personagens apresentados ao espectador como o Zar (Keenan Wynn) que chega em Hard Times acompanhado de um grupo de prostitutas para ser o novo administrador do Saloon e o andarilho Leo Jenks (Warren Oates) que fazem com que "O Homem com a Morte nos Olhos" seja mais leve e até um tanto cômico, se assemelhando aos trabalhos mais conhecidos de Burt Kennedy como diretor e isso faz com que o longa num geral não compartilhe da força de seu início. Ainda assim, Kennedy volta e meia injeta algumas doses de pessimismo e melancolia, sem falar da ameaça constante do inevitável retorno do Mal que voltará para tocar o terror em Hard Times outra vez.

É curioso como as metáforas empregadas ao longo de todo o filme passaram completamente batidas pela enorme maioria dos seus espectadores. Olha o nome da cidade, por favor!! "O Homem com a Morte dos Olhos" merecia ser mais conhecido, nem que seja pelo elenco que ainda inclui figuras muito queridas como John Anderson, Lon Chaney Jr., Paul Fix, Elisha Cook Jr. e Edgar Buchanan.

A Classicline resgatou esse belo longa esquecido e o lançou no nosso mercado doméstico. O filme é apresentado com uma cópia de qualidade de som e imagem acima da esperada com áudio original em inglês, dublagem em português e em fullscreen (4x3) mas faz-se necessário um pequeno ajuste nas configurações da TV para que ele seja assistido no formato widescreen (16:9) sem qualquer perda de sua fotografia original. "O Homem com a Morte nos Olhos" pode ser adquirido nas melhores lojas. Seguem abaixo alguns links para a aquisição do DVD.

Livraria Cultura

Livraria da Folha

segunda-feira, dezembro 12, 2016

DVD: O PORTAL DO PARAÍSO (Heaven's Gate, 1981)


Em novembro de 2014, a Obras-Primas do Cinema (OP) chega ao mercado brasileiro. Com uma média de três a quatro títulos por mês, a empresa tem lançado uma série de filmes que nunca receberam a devida atenção no nosso País. Vários dos títulos presentes em seu catálogo só tiveram o seu primeiro lançamento em DVD através desta distribuidora.

E um dos seus últimos lançamentos é a edição especial com dois DVDs pela primeira vez no Brasil de O Portal do paraíso, do realizador Michael Cimino, falecido neste ano de 2016 aos 77 anos. Assim como "Profissão: Ladrão", "Peggy Sue – Seu passado a espera" e "Mamãezinha Querida", outros longas também lançados pela OP nos últimos meses, esse trabalho de Cimino é um daqueles casos onde estamos diante de uma obra que é mais comentada do que assistida.



O DVD utiliza como matriz a versão restaurada e reeditada pelo seu diretor com 216 minutos de duração. Foi um trabalho cauteloso, ‘frame a frame’, onde Cimino alterou radicalmente como a fotografia do lançamento original era vista e conseguiu deixar o filme e o trabalho de Vilmos Zsigmond ainda mais lindo de se ver. Depois da fria recepção inicial, a United Artists ainda lançou uma versão de 149 minutos e foi um catastrófico fracasso de bilheteria do mesmo jeito. O fiasco de público e crítica desse filme foi decisivo na venda da UA para a MGM e no fim do reinado dos diretores da New Hollywood (exceto nomes que continuavam lucrativos como Steven Spielberg, George Lucas e Woody Allen) com os estúdios junto a O Fundo do Coração de Francis Ford Coppola.

Dizer que a produção deste faroeste épico foi problemática é de uma gentileza sem tamanho. As histórias por trás dos bastidores chegam a ser tão extremas que beiram o insano. Tudo graças ao perfeccionismo exagerado de Cimino, saído de uma grande vitória no Oscar por O Franco-Atirador, que chegou a esperar horas para que o céu ficasse do jeito que ele queria para filmar algumas sequências, a gastar dias com cenas que não duravam pouquíssimos minutos e a demolir sets inteiros por pura birra e insatisfação.



A produção dividiu opiniões até mesmo nos seus bastidores. Enquanto Kris Kristofferson, Isabelle Huppert, Jeff Bridges e Christopher Walken manifestam orgulho com relação a esse filme, Tom Noonan e Terry O Quinn (dois character actors de responsa) odiaram trabalhar com Cimino. O diretor chegou a demitir um então estreante Willem Dafoe porque o ator gargalhou de uma piada contada por um figurante. Dafoe continua no filme em uma participação não-creditada no melhor estilo piscou, perdeu durante uma briga de galos. John Hurt, então um dos atores principais do filme, ficou fulo e impaciente com o longo ritmo das filmagens e chegou a rodar "O Homem Elefante” inteiro enquanto o seu personagem em "O Portal do Paraíso" precisou ter cenas cortadas e reescritas do roteiro. Não é para menos que ele está desperdiçado pois o seu Billy Irvine decepciona ao aparentar tamanha importância para a história de James Averill (Kristofferson) e terminar sendo pouco mais do que uma ponta de luxo.


Por essas e outras, o orçamento do filme pulasse de 11 para 40 milhões de dólares, tido como um dos maiores do período. Hoje esse valor corrigido não paga metade de um filme do Transformers. Para saber de mais histórias lendárias a respeito da produção, recomenda-se a leitura do obrigatório Easy Riders, Raging Bulls, de Peter Biskind e de Final Cut: Dreams and Disaster in the Making of Heaven’s Gate, escrito por Steven Bach, que foi executivo da United Artists no período da produção deste filme que, sim, tem seus admiradores e detratores e pode ter pecado pelo excesso e ambição de Cimino mas cá entre nós… qual o ser humano que nunca pecou em sua vida por esses dois belos motivos?


A chegada do lançamento do DVD duplo da Obras-Primas do Cinema no nosso mercado é uma oportunidade para o espectador do nosso país conhecer esse importante trabalho de um dos maiores diretores do cinema norte-americano. Além da cópia restaurada do longa, o segundo disco apresenta depoimentos de Michael Cimino e Joann Carelli (produtora), Kris Kristofferson, David Mansfield (o jovem compositor da belíssima trilha sonora que também aparece no longa como um violinista) e Michael Stevenson (segundo assistente de direção, que já tinha trabalhado com ninguém menos que David Lean e Stanley Kubrick), mais uma demonstração do trabalho de restauro da produção, um teaser e um spot de TV. O verso da capa do DVD apresenta um still com Kristofferson e Huppert e, como sempre, o produto vem acompanhado de um card colecionável. Essa edição especial de "O Portal do Paraíso" pode ser encontrada facilmente nas melhores lojas físicas e online.

Texto também publicado no site Cinema Escrito