domingo, maio 20, 2012

Entrevista com o diretor e roteirista Todd E. Freeman (CELL COUNT)

 
Na contagem regressiva para a estréia mundial de "Cell Count" hoje no Fantaspoa, eis a versão integral da entrevista que conduzi com Todd E. Freeman. Ela foi publicada na última segunda-feira na Folha de Pernambuco. 

Há 11 dias, a capital do Rio Grande do Sul acompanha o VIII Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o Fantaspoa, que já é considerado o mais sério e completo evento do gênero no Brasil. Até o próximo domingo (20) serão apresentados mais de 150 filmes entre longas e curtas-metragens, de mais de 28 países. Quem encerra o evento é o diretor norte-americano Todd E. Freeman, que irá fazer o lançamento mundial de seu mais novo filme, “Cell Count”, seu sexto longa-metragem. Escrito e dirigido por Todd, a obra fala de um homem que aceita que sua esposa seja submetida a um tratamento experimental por causa de uma doença fatal. Em pouco tempo, o casal se encontra em quarentena numa prisão junto a seis pessoas. Todas elas desconhecem que estarão sujeitas a uma cura que será pior do que a própria doença.

Dos EUA, Todd conversou com a Folha de Pernambuco sobre as expectativas, suas produções anteriores e a parceria com o irmão Jason, outro realizador que vem chamando atenção no cenário independente norte-americano.


01 – Como você foi infectado pela doença do “fazer cinema”?

A forma como você usou as palavras doença e infecção em relação ao “fazer cinema” é muito divertida. Meu irmão, irmã e eu fomos todos “infectados” com a "doença do cinema” muito cedo em nossas vidas. Meu pai colecionava cópias em 16MM de filmes clássicos e nos fazia sentar em frente a tela e contava todas as histórias dos sacrifícios que os cineastas tiveram para os filmes serem feitos. Nosso pai é um Ministro Batista, assim como um ávido cinéfilo… e foi a combinação dos dois que fez nos encontrarmos no mundo do cinema. Eu ia para a igreja três vezes na semana e então nas noites de sexta-feira a gente se sentava, assistia “A Noite dos Mortos Vivos” e escutava como George Romero e companhia sofreram para fazerem os seus sonhos se tornarem realidade. Uma incrível, porém meio estranha, maneira de ser criado. Eu não desejaria que tivesse sido de outra maneira.

02 – Podemos dizer que seu irmão Jason sempre esteve com você desde o início?

Sim. Jason começou a fazer filmes quando ele tinha por volta dos 10 anos e eu era o ator nesses primeiros filmes dele. Ele fez um filme quando tinha 20 em 16MM, assim como eu também fiz e passamos alguns anos estudando na escola de cinema juntos. Então nos mudamos para Portland 10 anos atrás… e desde então, temos produzido intensamente. Ele geralmente escreve e dirige os seus filmes e eu co-produzo e co-fotografo com ele e daí ele faz o mesmo para os filmes que escrevo e dirijo.


03 – Fale sobre as suas maiores influências como realizador.

Meus favoritos são os filmes de Brian DePalma, John Carpenter, FW Murnau e Woody Allen mas influência é uma palavra forte. Eu diria que como roteirista sou mais influenciado por Westerns e Noir mas como diretor, sou atraído por qualquer gênero que você imaginar. Eu diria que sou influenciado por cada filme que assisto... e tento sempre ver o máximo que posso.

04 – Seu pai, Dale Freeman, é um autor respeitado. Ele pode ser considerado uma grande influência no seu trabalho e no de seu irmão? 

Com certeza. Nosso pai é a maior razão pela qual fazemos filmes. Ele gosta de dizer para todo mundo que é a pessoa mais importante no set, já que ele é o Produtor dos Diretores.


05 – Seu primeiro longa é um filme de horror chamado “Reynard The Fox”. O gênero sempre foi um de seus favoritos? 

Filmes de Terror e Suspense são provavelmente os meus favoritos, junto aos Westerns e Noirs. Gosto de personagens em perigo, anti-heróis e fortes antagonistas. Filmes que te fazem cair o queixo e nunca sentir que você está no controle... filmes que te levam numa jornada e deixam você saber bem cedo que nenhum personagem está seguro e que as regras serão atiradas pela janela.






06 – Como é o relacionamento entre você e Jason durante todo o processo de fazer um filme, da pré-produção ao corte final?

Normalmente, escrevemos os nossos filmes pessoais ao mesmo tempo. Então nos dedicamos ao financiamento e depois, pré-produção. Nossos dois últimos filmes, “Cell Count” e “The Weather Outside”, foram gravados simultaneamente no curso de três meses. Produzimos e filmamos os dois filmes juntos. Eu sou o diretor e roteirista de “Cell Count” e Jason escreveu e dirigiu “The Weather Outside.”



07 - “Wake Before I Die” é o seu primeiro filme dirigido em parceria com Jason. Nós veremos isso acontecer mais vezes no futuro?

Estamos adaptando outro livro do nosso pai para um roteiro agora mesmo. Está em desenvolvimento e será o nosso próximo filme. Nós esperamos co-roteirizar e dirigir muitas das adaptações literárias do nosso pai... mas “The Rest of Us” será o próximo.



08 – Você gosta de trabalhar sempre com a mesma equipe de outros projetos? 

Creio que com o crescimento dos orçamentos nós precisaremos de uma equipe maior. Para termos a nossa visão bem refletida na tela deveremos contar com uma equipe maior e, em alguns casos, mais experiente. Mas sim, claro, tenho um grupo muito próximo de pessoas que espero continuar trabalhando por muitos e muitos anos. É um cliché muito usado no ramo do cinema, mas nós realmente somos uma família e nos amamos muito. Você precisa amar um ao outro para ficar preso numa cadeia por 23 dias de filmagens no meio do inverno.


09 - Depois de “Reynard the Fox”, você escreveu e dirigiu dois dramas criminais, “Two Fisted” e “Pray for Hell” (aka Come Hell or Highwater). Como foi a experiêcia de fazê-los? 

Esses dois longas foram as minhas primeiras experiências fazendo o que eu chamo de "Filmes Narrativos". Eu queria muito aprender a contar melhor uma história do início ao fim e ter a audiência embarcando na jornada. Acredite... se você assistiu a algum desses filmes... você pode não acreditar que esse era o meu objetivo mas isso me ensinou tudo o que sei hoje sobre o fluxo narrativo em contar uma história. Trabalhei com atores profissionais pela primeira vez e sou muito grato por quem acreditou em mim cedo na minha carreira. Eu era um cãozinho pequeno e fui encorajado a acreditar que poderia fazer de tudo em relação a produzir filmes.


10 – “Cell Count” é seu retorno ao cinema fantástico. Você pode descrever como foi o processo criativo de escrever o roteiro para ele?

Sim. É o meu retorno ao cinema fantástico, aonde tudo começou para mim. Há 8 anos atrás, a minha mãe foi diagnosticada com Cancer... um tumor explodiu e basicamente se espalhou pelo seu tórax. Tudo o que eu poderia imaginar é se existia algo que pudesse ser colocado nela... algo que comeria toda a doença e reconstruiria o tecido saudável. Eu estava em choque e foi assim que decidi lidar com tudo isso. Examinando meus sentimentos sobre uma doença incurável, a sensação de desespero e inventando minha própria maneira de curá-la. Naqueles tempos o meu amigo produtor, Doug Baum, chamou essa minha idéia para fazer um filme de "O Enigma de Outro Mundo 2" e ela foi deixada de lado por alguns anos. Nos últimos dois anos, eu sabia que esse seria o meu próximo projeto porque esse amigo e produtor faleceu e eu queria fazer, o que ele chamava, de "O Enigma do Outro Mundo 2" uma realidade e celebrar o Fantástico em sua honra.


11 – Julgando pelo trailer, as atuações são um grande ponto positivo em “Cell Count”. Encontrar um time dedicado e profissional não é tão fácil como as pessoas geralmente pensam. Também podemos notar dois atores bem experientes no elenco de apoio: Ted Rooney e Daniel Baldwin. Foi algo diferente para você como um diretor de atores, considerando seus projetos anteriores? 

Sim... as atuações em "Cell Count" precisavam ser muito boas ou ninguém se importaria pelo filme. Foi muito importante para mim que cada ator no filme estivesse perfeito em seu papel. Escrevi esses dois personagens para Ted e Danny. Fizemos testes para os personagens de Sadie Carpenter e William Wallace mas todos os outros papéis foram escritos com certos atores em mente. Sempre me considerei um diretor e roteirista de atores. Amo eles e respeito mais o seu trabalho que eu posso explicar. Todo e cada ator em "Cell Count" é 100% responsável pelo sucesso que o filme tem. Os atores são a razão pela qual ele funciona. Estou em débito com eles para sempre. Deve ser lembrado que eu estrelei no meu primeiro longa, "Reynard the Fox"... mas a cada filme que faço, mais eu noto que preciso de contratar pessoas que são tão apaixonadas quanto eu para tomar conta de certas funções. Atuação foi a primeira coisa que eu deixei de lado. Em nossos próximos filmes esperamos juntar forças com um diretor de fotografia assim como possíveis editores.

12 – O visual de “Cell Count” também é uma atração do filme. Ele foi gravado em HD?

Nós possuímos uma câmera Red One Mysterium X e temos orgulho em tê-la usado em nossos dois filmes mais recentes. Uma câmera e experiência impressionante, no geral.



13 – O que virá a seguir para Todd e Jason Freeman (Polluted Pictures)? 

Estamos adaptando o livro de nosso pai “The Dinetah Tapes” que será feito para a sua produtora, a Highland International Pictures. Logo depois voltaremos a trabalhar em nossos filmes pessoais novamente. O meu é um faroeste moderno. O de Jason é uma comédia de humor negro. Os dois filmes... como "Cell Count" e "The Weather Outside"... deverão explodir a mente das pessoas e provavelmente "infectar" cinéfilos do mundo inteiro com a "doença" do cinema por muitas gerações.

14 – Este é o seu espaço para enviar uma mensagem aos leitores e todos os fãs de cinema independente de gênero no Brasil.

Filmes são feitos para serem compartilhados. Você pode imaginar se Lumiere escondesse a sua câmera ou se Edison não tivesse projetados aquelas imagens para ninguém com exceção de amigos e família? E se eles tivessem feito do cinema um segredo nunca compartilhado com o resto do mundo? O que é incrível sobre os filmes é que eles são uma das poucas coisas do mundo que foram criadas para serem compartilhadas no mundo inteiro. Não importa a cor de sua pele ou a sua linguagem: Os filmes são feitos para todos nós e criados sem fronteiras. Muitos fazem filmes para onde eles vivem e os exibem apenas para seus amigos e parentes. Mas a experiência deve ser considerada algo bem maior. É minha responsabilidade como contador de histórias em compartilhar filmes com as mais diferentes pessoas ao redor do globo da maneira que for possível. Tenho orgulho de exibir meu filme pela primeira vez no Brasil com legendas em português. O cinema tem uma linguagem própria e estou muito feliz em poder comunicar o meu filme "Cell Count" com os meus amigos cinéfilos do mundo inteiro... mas primeiro, com os meus irmãos e irmãs do Brasil. Não vejo a hora de me encontrar com todos vocês.

Nenhum comentário: