terça-feira, dezembro 27, 2011

Entrevista com Walter Ruether (SCARLET FRY'S JUNKFOOD HORRORFEST)


Voltamos das festividades natalinas dando mais espaço para cinema de gênero independente. Bati um papo com Walter Ruether, realizador de três antologias de horror de baixíssimo orçamento apresentadas pelo próprio como um demente “Horror Host” chamado Scarlet Fry. HORRORAMA saiu em 1990, JUNKFOOD HORRORFEST em 2007 e NIGHTMARE ALLEY no ano de 2010. Ruether hoje trabalha em mais uma de suas antologias, SCREAM MACHINE, que deve ser finalizada e lançada em 2012. Ele também é vice-presidente de aquisições para a nova distribuidora Chemical Burn, que tem lançado uma série de pequenos filmes de interesse aos fãs do horror e exploitation. Confiram abaixo o que Ruether tem a dizer aos leitores do blog sobre seus filmes e o cenário atual do horror independente.

VeV - Quais são as suas maiores influências no cinema de horror?

Minhas maiores influências em filmes de terror são variadas e não tenho certeza se elas são refletidas desta maneira em meus filmes. Creio que podemos notar uma enorme influência que Herschell Gordon Lewis tem em meus filmes, John Waters também. Os meus dois primeiros filmes são bem ruins, mas também são divertidos de assistir e isso é o que eu tendo a amar em relação ao gênero antes de Hollywood se aproveitar dele. Eu pessoalmente amo os filmes da Hammer, Amicus e quase tudo com o Vincent Price. Também gosto de gente como Paul Naschy, Fulci, Argento, Ted V. Mikels, Frank Hennenlotter... cara, a lista de nomes só cresce. (risos)


VeV - A primeira aparição de Scarlet Fry foi em HORRORAMA. Como o personagem do apresentador foi criado?
O engraçado é que Scarlet Fry definitivamente vem dos antigos "horror hosts" que eu tinha o costume de ver na TV durante os anos 70 como Svengoolie, Zacherly, todos esses apresentadores das antigas de "shock theater" e acredite se quiser, sempre fui um puta fã do Alice Cooper então tem muito disso aí misturado também. Talvez deve ser por isso que sou tão incompreendido? hmmmm?

VeV - Desde HORRORAMA, você fez mais duas antologias de horror (JUNKFOOD HORRORFEST, NIGHTMARE ALLEY) e agora está trabalhando em uma nova intitulada SCREAM MACHINE. Nota-se um pequeno reterno delas com os seus filmes, DEAD THINGS de DT Carney e o brasileiro NEVERMORE. O que você pensa sobre o estilo voltar a ganhar alguma atenção dos realizadores e fãs de horror?
Essa é uma questão complicada. Penso que os fãs de horror estão mais esnobes do que nos velhos tempos. A gente tinha capacidade de lucrar mais, os padrões estão muito altos agora, qualquer um pode fazer um filme hoje e o equipamento é tão avançado que você tem garotos fazendo filmes visualmente bem feitos e existem muitos deles sendo realizados. Enquanto isso, o mercado para esses filmes está secando, estamos na beira de uma enorme mudança na mídia. Creio que os dias do DVD estão contados e logo logo veremos tudo através de streaming online, eu não estou animado pela chegada deste dia. Então eu digo que mais filmes deveriam ser assistidos pelo entretenimento, não pela arte, se é que isso faz algum sentido. Todo mundo pode ser um critico. Divirtam-se, essa é a minha filosofia. O horror nada mais é que o punk rock da indústria do cinema, nós temos muitos fãs de The Smiths por aí hahahaha. Sem ofensas.

NE: Walter sabia que eu gosto de The Smiths... (risos)


(da esquerda para a direita, JUNKFOOD HORRORFEST, HORRORAMA e NIGHTMARE ALLEY)


VeV - Por quê Scarlet Fry parece ser um personagem diferente em cada uma de suas antologias?
Queria brincar com a idéia de que Scarlet Fry poderia ser qualquer um. Eu o deixo ter a sua própria personalidade, isso é o que é tão assustador a seu respeito. Não faço idéia quando Scarlet e o meu Eu real começam. Desde que criei o personagem, me vejo vestido de drag e inalando pimenta chili. O que diabos está errado comigo?

Em HORRORAMA, o apresentador era mais tradicional, com um visual como o Alice Cooper dos velhos tempos. Daí tivemos o caipira cheirador de pimenta chili (em JUNKFOOD HORRORFEST). Então voltamos ao tradicional (em NIGHTMARE ALLEY). Desta vez (em SCREAM MACHINE), Scarlet tira uma folga, estamos fazendo uma antologia mais séria que será minha homenagem a Amicus e a Hammer com muito gore e humor. Será interessante, tenho a melhor equipe que já consegui reunir e estou muito excitado!

VeV - O que você fez entre HORRORAMA e JUNKFOOD HORRORFEST?
Entre HORRORAMA e JUNKFOOD eu apareci em diversos filmes de gênero como GROSS OUT, dos produtores de JANTAR SANGRENTO, SATAN'S STORYBOOK com Ginger Lynn. Fiz um filme com Tuesday Knight de A HORA DO PESADELO IV. Também fiz muita figuração em Hollywood e alguns curtas que não foram para lugar nenhum. Mas nunca deixei a indústria, trabalhei para a Camp Video nos anos 80, posso dizer que tenho uma longa história no horror.

VeV - Tenho certeza que foi difícil encontrar um distribuidor para HORRORAMA, já que ele tinha apenas 30 minutos de duração. JUNKFOOD HORRORFEST conseguiu um bom lançamento recente através da Chemical Burn. O que você pensa da distribuição de filmes de gênero independentes hoje?

Se JUNKFOOD e NIGHTMARE ALLEY fossem realizados nos anos 80 e conseguissem distribuição em VHS, hoje eu seria um cara rico. Se você conseguir vender mil cópias nos tempos atuais, você é um cara de sorte.

JUNKFOOD foi lançado primeiramente sem extras em um pack com 50 outros filmes de terror. Desta vez, temos a versão do diretor com cenas deletadas, erros de gravação com Calico Cooper e mais dois filmes apresentados por mim, CARNIVAL OF SOULS e HORRORAMA. Uma senhora edição especial.

VeV - Como foi trabalhar com Calico Cooper (filha de Alice) em JUNKFOOD HORRORFEST?
Foi muito divertido, ela é bem profissional. Tive medo de que ela caísse no beco onde filmamos a sua participação, tinha muito vidro lá e Alice me mataria. Mas Sheryl – esposa de Alice e mãe de Calico – estava no set e ela só fazia rir, daí pensei “Nossa, esse pessoal é mais louco do que eu. Isso é demais!” Gostaria de trabalhar com Calico novamente, mas não é tão fácil hoje, eu a tive no início de sua carreira como atriz.

VeV - Já que agora você também está trabalhando para a Chemical Burn, como VP de aquisições, poderíamos saber quais são os requisitos básicos para um filme que poderia interessar à distribuidora?

Sim, nós procuramos por filmes de gênero interessantes que tragam algo de novo e óbvio, qualidade. Todo mundo pode fazer um filme hoje, não estamos procurando por filmes classe C (risos). Um filme com boa estória, bem filmado, bons atores é tudo o que você precisa. E gore, claro.

VeV - Como é o retorno do público em relação aos filmes lançados?
O público é sensacional. Somos muito gratos a todos os fãs do cinema de horror.

VeV - Walter, sinta-se à vontade e deixe um recado para os amigos brasileiros e fãs do gênero que estão lendo a entrevista.

Por favor, confira os meus filmes. Eles são divertidos, apenas querem ser grosseiros e fazer você rir. Obrigado.


Agradecemos a Walter Ruether pelo tempo concedido para a entrevista

Um comentário:

Fraternidade do Medo disse...

Muito boa a entrevista, Osvaldo. Walter Ruether resgatou em poucas linhas o verdadeiro espírito dos filmes trash. Não que dinheiro não seja útil, mas filmes que promovam momentos de entretenimento ao invés de serem vitrines de técnicas ou atores/atrizes (como as saudosas produções "trasheiras" dos anos 80 e 90) sempre merecerão seu mérito por divertir o público e tornar o horror um produto divertido e porquê não, rentável.