quarta-feira, maio 25, 2011

REFLECTIONS OF EVIL (2003, EUA)


“Que porra é isso?”

Taí uma pergunta que me veio diversas vezes (no bom sentido) enquanto assistia REFLECTIONS OF EVIL. O filme de Damon Packard é um exemplo de cinema underground em estado extremo, vindo de alguém que sabe muito bem do que está fazendo.

Packard tem uma visão ácida e pessimista a respeito da indústria do cinema. Para ele, a criatividade praticamente morreu com o final dos anos 70. É essa década que será homenageada em REFLECTIONS, a começar por uma montagem que o apresenta como se fosse um telefilme da ABC Movie of the Week, emissora que nos trouxe pérolas do calibre de CRIATURAS DA NOITE, que já foi refilmado em produção de Guillermo Del Toro e O AMULETO EGÍPCIO, de Curtis Harrington. O próprio título remete a estes filmes que foram tão marcantes para o realizador, como REFLECTIONS OF A MURDER, refilmagem da ABC para o clássico de Henri-Georges Clouzot, AS DIABÓLICAS. Ninguém mais, ninguém menos que Tony Curtis é o apresentador da produção, editado diretamente de uma introdução feita para o DVD de um outro filme qualquer e que tem a voz trocada por um dublador quando informa o nome do diretor e o título do longa.


Os créditos iniciais se utilizam da música-tema de Ennio Morricone para O VENTRE NEGRO DA TARÂNTULA e mostram um importante personagem do filme correndo sem rumo em câmera lenta, pelas ruas e praças de Los Angeles. Trata-se de Julie (Nicole Vanderhoff), uma garota que morreu por uma overdose de PCP durante os anos 70. Ela é irmã de Bob (vivido pelo próprio diretor), o nosso protagonista, um vendedor de relógios obeso que está prestes a partir desta para melhor a qualquer momento por intolerância a sacarose. Uma boa porção do filme é dedicada a sua rotina: xingar e ser xingado, agredir e ser agredido pelos mendigos, policiais, transeuntes e moradores de LA. O homem passa o dia inteiro oferecendo os relógios que ninguém compra e a comer porcarias que só agravam seu estado de saúde.

A longa cena de vômito é um dos momentos mais notórios da produção, assim como a sequência onde Bob é atacado por um grupo de cachorros num subúrbio. São momentos que reforçam a sensação de estarmos diante de uma carta de amor e ódio para Los Angeles em forma de cinema. Os veteranos do Vietnã, representados pela participação especial de Tim Colceri (numa referência ao seu personagem em NASCIDO PARA MATAR, de Stanley Kubrick), também não escapam da mira de Packard, assim como a cultura pop e duas de suas maiores influências: George Lucas e Steven Spielberg. E onde Julie entra nisso tudo? Ela é uma espécie de anjo da guarda para Bob e volta e meia aparece em flashbacks, em um deles ela observa o jovem Spielberg dirigindo seu primeiro longa, o telefilme SOMETHING EVIL de 1972.


Se o leitor está achando tudo isso uma verdadeira zona, então saiba que o filme inteiro usa e abusa de uma edição frenética e muitas vezes esquizofrênica para compor a sua narrativa e não me refiro apenas a edição de imagem, mas a de som também. Praticamente todas as vozes foram dubladas e/ou adicionadas na pós-produção, trechos de trailers, vinhetas e filmes como GUERRA NAS ESTRELAS, SOB O DOMÍNIO DO MEDO e O ILUMINADO podem ser ouvidos durante o desenrolar do filme. Isso sem falar das já citadas imagens de arquivo. O respeito às leis de direito autoral é zero, o que impossibilita sua exibição na TV e distribuição fora do meio underground.

Conta-se que REFLECTIONS OF EVIL apenas foi realizado por conta de uma herança que Packard recebeu de um parente rico, o cara gastou toda a grana na produção realizada no melhor estilo 'cinema de guerrilha' e na posterior distribuição do filme em DVD, numa tiragem de 23.000 cópias gratuitas deixadas em cinemas, restaurantes, bancas de revista e também enviadas através de correios. O esforço de Packard foi válido e o filme abriu caminho para seus trabalhos posteriores, que dialogam com esse primeiro e último longa do realizador, até o momento. Não é qualquer um que consegue fazer de uma visita no parque da Universal Studios algo que poderia ter saído de um pesadelo. Uma das atrações é "A Lista de Schindler: Um Passeio".

REFLECTIONS OF EVIL é um caso clássico de “ame ou odeie”, uma forte experiência cinematográfica da qual texto algum fará justiça. Existem três versões do filme, A primeira de 138 minutos, o segundo corte de 2004 com 116 minutos (a que eu assisti) e a terceira de 90 minutos, feita a pedido de uma distribuidora estrangeira. REFLECTIONS pode ser assistido no YouTube, onde Packard também disponibiliza a maior parte de suas produções.

Para adquirir esse e outros filmes com o próprio realizador em DVD, além de diversas raridades, acesse o blog: http://damonpackard.wordpress.com/

3 comentários:

J. Luca disse...

Lembro-me de ter lido a respeito deste filme na segunda edição da saudosa CIne Monstro, quando foi feita a cobertura do festival Fantasia no Canadá. Na tal reportagem dizia-se até que o público mais sensível poderia ser levado a ataques de epilepsia devido a frenética edição do filme. Não sei se era exagero... confere isso Osvaldo?

Ainda sobre o festival, se eu não me engano este filme venceu o prêmio de filme mais inovador daquela edição...

E agora que eu fiquei sabendo que o filme pode ser encontrado no youtube vou correr atrás dele para assistí-lo. Valeu a dica e parabéns pelo excelente blog!

Osvaldo Neto disse...

Não tive o prazer de ler a matéria, mas sim, eu atesto o que ela informa. O filme não é para qualquer um. Tenho certeza que pessoas simplesmente devem parar o filme no início ou no meio por conta de toda a confusão narrativa orquestrada pelo Packard. Em poucas palavras, você pode entrar numa "bad trip" sem o uso de álcool ou outras substâncias! O espectador precisa contar com uma boa dose de humor e curtir experiências sensoriais como os filmes de Lynch e no campo do cinema de gênero, gente como Fulci, Soavi. Jean Rollin é uma outra forte referência, na maneira como o diretor filma a irmã de Bob em alguns momentos.

Obrigado pelo comentário e elogios. Volte sempre. :)

Vulnavia disse...

Quando o filme começou eu pensei exatamente isso! "Mas que trem doido é esse?"
Mas continuei vendo e sei lá, me prendeu por várias coisas...o barulho tbm é frenético, as vozes aumentadas e aceleradas, a parte dos cães é MUITO angustiante! Aquela briga dele com os policiais...ah, é muita coisa...como eu disse na "crítica" que fiz, é muito mais uma experiencia do que simplesmente ver um filme...
Eu baixei a versão maior, de 138 minutos.
Ah,eles mostram ele vendo o Senhor dos Anéis também, rsrs

Graaande dica essa, mesmo!Obrigada por me apresentar algo tão interessante!