terça-feira, março 29, 2011

Matéria "O Clube do Horror", Caderno C, Jornal do Commercio

Houve uma pequena confusão nas minhas últimas falas. Usei alguns termos quando perguntado das características do gênero (gore, slasher, o que era um filme trash etc.) e exemplifiquei. Entrevista feita em sua maior parte pelo telefone, já estou ficando meio traumatizado com elas... é a segunda vez que isso me acontece! (risos). São coisas da pressão que todo jornalista encara quando tem de fechar um texto o mais rápido possível. Mas a matéria não deixa de ser bacana.

Obrigado, Ingrid! Me surpreendi demais com seu interesse e curiosidade. Conte comigo sempre. :)

O Clube do Horror
Publicado em 28.03.2011
Eles cresceram tomando sustos diante da TV – e adorando isso –, não se importando se é uma produção trash ou um clássico

Ingrid Melo
imelo@jc.com.br


Se você é daqueles que passa mal só de lembrar do interessantíssimo remake de A noite dos mortos vivos (Tom Savini, 1990) que tanto assombrou a sua Sessão da tarde, é melhor abrir os olhos com o seu vizinho, bater a porta e fechar o trinco. E o espanto aqui é que, apesar de ser pouco exaltado por críticos e estudiosos, tem muita gente fã de cinema que é fanática pelo gênero do terror e não troca um Lúcio Fulci por nenhum Woody Allen.

É o caso de Lucas Freire, estudante do terceiro período de Cinema na UFPE, que ainda criança começou a se interessar pelos sustos que tomava em frente à tevê. “Adorava assistir às sessões do Cinema em casa, que passavam à tarde no SBT. Os filmes A bolha assassina (Chuck Russell, 1988), O monstro do armário (Bob Dahlin, 1986), e o ótimo O ataque dos tomates assassinos (David Denneen, 1978) marcaram época para mim”, conta.

Aos 12 anos, Lucas saiu decidido de casa e foi à locadora em busca de O exorcista – Versão do diretor (William Friedkin, 2000), mesmo sabendo que o filme era para maiores de idade “Tinha visto cenas na televisão de Regan (Linda Blair) descendo as escadas de costas. Fiquei muito curioso e não via a hora de assistir. O resultado foi uma semana com a sensação de que o Pazuzu (o demônio do longa) era a minha sombra”, diverte-se.

A mania de perseguição também atingiu Caio Cagliani, colega de Lucas, quando mais novo. Outro fã do paracinema, Caio começou sua aventura pelo mundo do horror com O brinquedo assassino (Tom Holland, 1988). “Trancava as bonecas da minha irmã no armário, pois tinha certeza de que iam me matar”, revela.

Segundo pensa o estudante, o contato com filmes de terror começa ainda na infância devido ao interesse da criança pelo proibido. “Você não deve assistir aquilo, então sente um desejo arrebatador de fazê-lo”, teoriza. Há, também, a pressão dos amigos. “Na escola, era quase uma prova de coragem: ‘Ah, você já viu tal filme?’ e o desafio estava feito, você ia ter que assistir para não ficar como manhoso”, recorda.

De acordo com o especialista em filmes de horror Osvaldo Neto, editor do blog Vá e Veja (http://blog.vaeveja.com) e colaborador de sites como o Boca do Inferno, o que chama a atenção do público é o ar fantástico que permeia essas produções. “O meu interesse por cinema se deu com Gremlins (Joe Dante, 1984). Foi a produção que me fez sentir que estava diante de uma arte onde tudo era possível”, afirma.

E isso é percebido desde os primórdios do segmento. Drácula (Tod Browing, 1931), considerado um marco no cinema de horror por estimular a produção de filmes desta linha – no mesmo ano a Universal Pictures lançaria Frankenstein, de James Whale – já anuncia o ar surreal com um homem que vira morcego. O próprio Frankenstein abusa do ar fantástico com um monstro criado em laboratório que se volta contra o seu criador.

Osvaldo acredita que o gênero é o que possui maior liberdade de ousadia e que isso fascina tanto realizadores quanto consumidores do produto. “Nós estamos falando de um cinema diferente e complexo, com possibilidades infinitas de realização, em orçamentos de qualquer tamanho”, ressalta.

E a prova se dá quando assistimos a O ataque dos zumbis dançarinos 2, que conta com a participação de Lucas e Caio, como diretor de arte e ator, respectivamente. O curta é resultado de uma disciplina cursada por eles na faculdade e conta a história de pessoas que se tornam zumbis ao escutarem suingueira. “O filme foi feito bem no espírito do ‘cinema trash-independente-universitário’. Nenhum orçamento, pouco tempo e muita disposição. A gente se reuniu num domingo, na segunda o roteiro estava escrito, na terça gravamos as internas, na quinta gravamos as externas e no final de semana foi feita a montagem”, conta Lucas.

Aliás, falta de orçamento é o que mais contribui para que o filme de horror permaneça na marginalidade em quase todo o mundo – o gênero é tão desprezado pela Academia que Hollywood criou o Scream Awards para fazer coro ao Saturn Award, lançado por Donald Reed em 1973 com o intuito de mostrar que o paracinema não tem que ser, necessariamente, trash. “Há muitos filmes bons que seguem essa linha. Filmes que podem estar em qualquer sessão de arte. Pelo amor e pela morte (Michele Soavi, 1995), por exemplo, é um filme excelente, Deixa ela entrar (Tomas Alfredson, 2008) foi super elogiado”, defende Osvaldo.

Segundo ele, há uma estigmatização do paracinema devido a sub-gêneros como o “gore” e “splatter”, em que a violência é explícita e/ou ocorre de maneira exagerada. Dificilmente se pensa em filmes como o sádico e inteligente À meia noite levarei sua alma (José Mojica Marins, Zé do Caixão, 1963), que, ao mesmo tempo em que é underground e assustador, vale-se de um terror psicológico da mais elevada estirpe. “Há também uma referência muito recorrente aos filmes do gênero ‘slasher’, que se caracterizam por envolver assassinos em série e foram muito popularizados pelo cinema americano. Eles são trashes por princípio, e não devem ser menosprezados por isso, mas são apenas um segmento”, acrescenta.

Todavia, não importa a subclassificação, o que faz bom o cinema de horror é o ponto que o unifica: o desconforto que causa em quem assiste. O resultado pode ser gargalhadas, susto e até mesmo choro, mas sempre será permeado pelo medo. E não há nada mais fascinante. “É como se existisse um jogo entre o espectador e o filme. Você paga pelo ingresso, entra na sala de cinema sabendo que aquilo ali vai te causar medo, sustos e tudo o mais, mas mesmo assim isso te atrai. É uma certa atração pela repulsa, ou algo por aí...”, tenta definir Lucas. E é bem por aí.

4 comentários:

Leoh Auleliano disse...

Há também muito preconceito. Já vi pessoas que nem sequer assistem determinados dilmes do gênero por apenas saberem ser pertencentes a eles. Quem se permite assistir acaba sendo fisgado pela fascinação que o cinema de horror causa nas pessoas.

Mai Melo disse...

Fiz a matéria com um prazer imenso. Queria era ter tido mais espaço, muita coisa teve que boiar.
O preconceito é grande mesmo, mas tá mudando, tá mudando. Já tem estudos sendo feitos em universidades, cadeiras específicas sobre o gênero. Há de dissipar essa picuinha.

Abraços,
Ingrid.

Osvaldo Neto disse...

Isso! As coisas estão mudando para melhor, precisamos de grupos de interessados e entusiastas em Recife para apontar novos rumos e fazer com que esse cinema seja mais visto, conhecido e produzido aqui. Estamos dando os primeiros passos! :)

Rodrigo Almeida disse...

:)