quarta-feira, setembro 08, 2010

Entrevista com Brad Sykes (Plaguers) - 1a Parte


Das duas alternativas, uma é verdadeira: essa turma do cenário independente norte-americano dos filmes de gênero e baixo orçamento é muito gente boa ou sou eu quem tenho sorte. Como sei de algumas histórias desde o início de meu interesse em conhecer melhor os bastidores destas produções, posso dizer que tenho uma sorte das grandes. E essa fala é reforçada com o personagem que é Brad Sykes, hoje diretor e roteirista de uma série de filmes desde 1999 (21 longas, de acordo com o IMDB), cujos filmes mais lembrados são a trilogia slasher CAMP BLOOD, FÁBRICA DA MORTE onde uma irreconhecível Tiffany Shepis interpreta uma mutante assassina e o recente PLAGUERS, feito pela Nightfall Pictures, que é de sua propriedade ao lado da esposa Josephina Sykes.

Estrelada por Steve Railsback, a produção homenageia os 'rip-offs' oitentistas de ALIEN e sua continuação, assim como clássicos do período como DEMONS e GALÁXIA DO TERROR. A produção se encontra em cartaz no CineFantasy e terá a sua segunda exibição hoje às 20hrs, na Biblioteca Viriato Corrêa, Vila Mariana, SP.

O enorme interesse de Brad em falar para os leitores do Vá e Veja gerou uma épica entrevista, feita sem qualquer correria ou pressão, onde cobrimos sua carreira e seus filmes. Ela será dividida em partes e através de cada uma, você poderá se surpreender com o que Brad tem a dizer.

VeV - Quais são os seus filmes e diretores favoritos? E quais personalidades e produções te influenciaram o bastante para não desistir de ser um realizador?

Antes de tudo, obrigado por me ter em seu site! Meus primeiros heróis do cinema eram caras do terror: George Romero, Sam Raimi, Peter Jackson, Wes Craven, John Carpenter, Stuart Gordon, Dario Argento. Mais tarde, na escola de cinema, meu gosto se ampliou para incluir David Lynch, Paul Schrader, Ken Russell, Nicolas Roeg, William Friedkin, Michael Mann, Bob Fosse, Paul Verhoeven, Walter Hill, Roman Polanski, Alex Cox e muitos outros entre eles.

Sobre os filmes favoritos, eis uma lista parcial de filme que continuam me divertindo e inspirando: "A Trilogia dos Mortos" de Romero, "Martin", "The Evil Dead", "Re-Animator", "Halloween", "O Enigma do Outro Mundo", "Príncipe das Trevas", "Aliens", "All That Jazz", "Sorcerer", "Quando Chega a Escuridão", "O Massacre da Serra Elétrica 1 e 2", "Pague para Entrar e Reze para Sair", "Suspiria", "Terror na Ópera", "Demons", "Aquarius - O Pássaro Sangrento", "Escravas do Desejo", "A Faca na Água", "A Morte Pede Carona", "Veludo Azul", "O Quarto Homem", "Dragão Vermelho (Mann)", "Fortaleza Diabólica", "Hardware", "Viver e Morrer em Los Angeles", "Cherry 2000", "Mad Max", "Straw Dogs", The Shout, "Inverno de Sangue em Veneza", "A Marca da Pantera", "Mishima", "Assassinos por Natureza", "Ed Wood", "Trancers", "Ruas de Fogo", "O Selvagem da Motocicleta"…

Tenho certeza que você notou a falta de filmes mais recentes. Penso que a maioria dos cineastas iria admitir que os filmes assistidos enquanto se está crescendo ou antes de trabalhar na indústria, são aqueles que mais ficam em você. Pelo menos, é assim como funciona comigo.

O cineasta pelo qual eu ainda sinto maior inspiração é Romero. Especialmente tudo entre "A Noite dos Mortos Vivos" e "Dia dos Mortos". Ele é um dos últimos autores de verdade que nós temos, em qualquer gênero e ele continua a fazer do seu jeito, fora do sistema. Quando me sinto cabisbaixo sobre esse ramo, o trabalho de Romero me deixa excitado e me faz acreditar que tudo é possível se você tem o desejo e vontade de fazer acontecer.

VeV - Qual é o aspecto mais recompensador e excitante sobre fazer filmes para você?

Como roteirista, ver sua estória e personagens ganharem vida no set, mesmo que a produção seja falha ou comprometida, é sempre muito prazeroso.

Como diretor, a filmagem é a minha parte favorita do processo. Escrever é solitário e editar é mais complicado, já que geralmente edito em minha cabeça enquanto escrevo e depois quando faço a decupagem do roteiro. Não acredito muito em "achar o filme" na ilha de edição. Estar no set e trabalhar com outras pessoas criativas - atores, diretores de fotografia, técnicos de efeitos, designers de produção - e sair com algo melhor do que você tinha envisionado é muito excitante e uma senhora experiência.

E claro, depois do filme pronto, participar de um festival onde o público realmente gosta do filme é um grande sentimento e faz toda a jornada valer a pena. No festival de cinema de Estepona, na Espanha, onde "Plaguers" teve sua estréia mundial, o cinema cheio de fãs estava gritando, vibrando, aplaudindo mais e mais vezes. Foi algo que nunca esquecerei enquanto viver.

VeV - E qual é o pior e mais frustrante aspecto sobre fazer filmes?

Produtores que não querem fazer o mesmo filme que você ou não se importam e colocam toda a responsabilidade no diretor, ou pegam todo o dinheiro para si mesmos, sendo injustos com o filme mas ainda esperando que você faça algo grandioso... atores difícieis, ingratos e anti-profissionais... não ter tempo, nem dinheiro o suficiente nas filmagens… diretores de fotografia e editores que são diretores iniciantes frustrados que tentam tomar seu filme... trabalhar duro e fazer um bom filme para então vê-lo divulgado porcamente ou simplesmente jogado pelo distribuidor.

Em 12 anos desde que comecei a dirigir, eu passei por tudo isso e muito mais, esse não é um ramo para os fracos do coração. Ainda bem que tive várias experiências positivas para continuar seguindo em frente. Vivendo e aprendendo.

Brad e Josephina

VeV - Como se deu tamanho interesse em fazer filmes de terror? "Plaguers" foi a primeira vez em que você também fez ficção científica?


Sempre fui um fã do gênero, mas a verdade é que o primeiro filme que me ofereceram para dirigir foi um filme de terror. Então fiz outro e mais outro... nesse ramo você é estereotipado muito rápido. Eu gostaria de fazer coisas diferentes também, mas depois de alguns filmes de terror no currículo, é difícil fazer as pessoas te verem como nada além de "um cara do terror".

"Plaguers" foi minha primeira ficção científica e essa foi uma das coisas mais excitantes sobre ele para mim, era diferente de tudo que fiz antes. Fazer uma ficção passada no futuro, no espaço etc gera mais demanda, é caro e requer mais tempo e trabalho que um filme slasher na floresta, por exemplo. Mas para minha primeira ficção científica, penso que o filme saiu bem legal. Eu gostaria de fazer outra novamente, só que com mais dinheiro desta vez!

VeV - Você iniciou sua carreira como assistente de produção e efeitos especiais, em filmes de nomes conhecidos pelos fãs do terror como Jeff Burr, Brian Yuzna, Jay Woelfel, Jack Sholder e David DeCoteau. Como trabalhar nesse campo te levou a direção em menos de dois anos?

Todos os filmes em que trabalhei foram educacionais para mim e na maioria das vezes, muito divertidos também. Jeff Burr é mesmo o nome que se destaca, pois foi através dele que minha carreira teve início, me contratando como assistente em dois filmes (encontrei minha futura esposa, Josephina, em um deles) e me apresentando a várias outras pessoas, incluindo algumas das que você mencionou. Aprendi tanto trabalhando para Jeff, que o considero meu mentor.

Brad segue instruções de Jeff Burr...

...e conhece Josephina, no set de PHANTOM TOWN.

Meu primeiro trabalho como diretor-roteirista veio por completa surpresa. Eu trabalhava como assistente de produção em um filme barato de ação e o produtor também estava fazendo alguns pequenos filmes de terror. Depois das filmagens, ele me pediu para ver "o meu melhor filme", então eu mostrei um filme em vídeo que fiz na faculdade chamado "O Pacto" e ele gostou e perguntou se eu tinha algumas idéias. Eu sugeri “Scream Queen”, que era basicamente uma atualização de filmes 'Euro-horror' como Devil’s Nightmare - um grupo de pessoas fica preso numa casa por uma longa noite e são mortos - e ele comprou a idéia. Foi meu primeiro filme de "Hollywood”. Escrevi o roteiro durante o feriado do Natal e através de um amigo, consegui uma “scream queen” real, Linnea Quigley para interpretar a protagonista. Ela foi ótima de se trabalhar e muito profissional. Não tenho idéia de quanto foi o orçamento, mas ninguém foi pago de verdade e nós filmamos em 4 ou 5 dias. Era um filme muito ambicioso - ambicioso até demais, olhando para trás! – mas aprendi muito fazendo ele e foi a partir daí que surgiram mais trabalhos como diretor.

Honestamente, nunca esperei dirigir nada - nem mesmo um curta - mesmo antes de me mudar para Los Angeles e ter feito 8 vídeos e vários curtas. Mas eu certamente tinha o desejo e quando a oportunidade veio, eu estava pronto para ela.


VeV – Como surgiu a idéia de fazer “Plaguers”?


Bem, sou um grande fã dos filmes de terror/ficção dos anos 80, como “Aliens”, “Enigma do Outro Mundo”, “A Mosca”, “Força Sinistra”, etc. Eles não eram feitos há um longo tempo então pensei em escrever um. Enquanto juntava algumas idéias, me toquei que zumbis já estiveram em todos os lugares, menos no espaço! Que melhor forma de juntar ficção científica e terror que um filme com “zumbis no espaço!” As oportunidades em termos de suspense, atmosfera e claro, insanos efeitos de maquiagem eram infinitos. Daí em diante foi criar uma causa para a “praga” e os personagens que lidariam com ela.

VeV – Sempre foi intenção do filme ser um retorno para os saudosos tempos de títulos como “Galáxia do Terror” e “Alien Contamination”? Você fez sua equipe assistir a alguns desses filmes como dever de casa?

Eu amo “Contamination” – aquele foi um dos primeiros filmes que comprei em VHS! “Plaguers” definitivamente foi intencionado como um retorno para todos aqueles filmes de terror/ficção do início dos anos 80 que sempre eram presentes nas nas sessões da madrugada da TV e nas prateleiras das locadoras. Os membros principais da equipe com quem falei sobre essas referências foram o designer de produção Scott Enge, a nossa figurinista Vicky Avery e o pessoal da Monster FX. Scott assistiu tudo que falei para ele – de “Mercenários das Galáxias” a “Força Sinistra” e sinto que você pode ver isso em seu design de produção. Vicky já conhecia todos esses filmes, assim como os caras dos efeitos, então foi como taquigrafia para eles.

VeV – Existem várias referências em “Plaguers”, incluindo “Demons” de Lamberto Bava para a mutação e movimento dos infectados. Temos ainda “Aliens”… podemos citar o videogame “Resident Evil: Nemesis” também? Você parece sentir prazer quando os fãs as acham e falam sobre elas. É tudo sobre as suas influências nos gêneros terror e ficção?

Muitas pessoas notam a influência de “Demons” nos efeitos e trilha sonora. Eu amo o horror italiano em geral e “Demons” é um de meus favoritos. Eu realmente segui o padrão ‘Demons’ na primeira transformação e pedi aos atores para assistirem ao filme e terem uma idéia como os ‘plaguers’ se comportariam. “Aliens” é, outra vez, um de meus favoritos de todos os tempos, e provavelmente a maior influência em “Plaguers”, em termos de estrutura de roteiro, personagens, design de produção e a batalha entre Holloway e a criatura no final.

Eu desenhei o filme para funcionar sem o espectador conhecer qualquer uma dessas referências, mas se você sacar elas, isso aumenta a diversão.

VeV – Foi bacana saber que o filme foi feito nos estúdios Laurel Canyon. O set da nave espacial tornou-se familiar para fãs em filmes B recentes, mas “Plaguers” tomou completa vantagem de ser filmado nele.

Não me surpreendo que muitos filmes tenham sido feitos lá DEPOIS de “Plaguers” porque nós reconstruimos, repintamos e basicamente, consertamos todos os seus sets, e ainda deixamos um monte de coisas para trás depois das filmagens! Nós realmente tivemos vantagem completa ao filmar em Laurel Canyon: usamos todos os sets, cada ítem e sobras de decoração de set que eles tinham, usamos a sua larga tela verde para todas as tomadas da nave... foi o lugar perfeito para fazermos “Plaguers” e o pessoal de lá foi demais.

VeV – Como “Plaguers” tem o maior orçamento que você já trabalhou e contou com o SAG (Screen Actors Guild), a seleção do elenco teve alguma diferença para, vamos dizer... o primeiro “Camp Blood”?

Uma enorme diferença. Em “Camp Blood”, tivemos um dia para escolha de elenco e cada ator que participou dos testes foi contratado! Não estou brincando. Em “Plaguers”, vimos centenas de pessoas, algumas lendo para múltiplos papéis. O único ator que não participou de testes foi Steve Railsback. Escrevi o papel de Tarver com Steve em mente e ele foi o primeiro ator que escalamos.

VeV – Eis uma pergunta que você não pode fugir numa entrevista feita por um fã de cinema B: como foi trabalhar com Steve Railsback?

Trabalhar com Steve foi uma grande experiência. Como muitas pessoas, sempre fui fã do trabalho de Steve há anos e fiquei excitado quando o conseguimos a bordo. O que eu não esperava, porque nem sempre isso acontece, foi o seu nível de sincere interesse e dedicação ao filme durante os meses de pré-produção. Nós tivemos longas conversas sobre o script, não apenas seu personagem, mas todos os outros e a história também. Ele visitou os cenários e trouxe um amigo para ajudar com a coreografia de lutas. E claro, durante as filmagens ele foi muito divertido de se trabalhar, dando o seu melhor nas muitas cenas de ação e trazendo peso para os momentos mais emocionantes. Muitas de minhas memórias das filmagens envolvem trabalhar com Steve.

VeV – O filme também conta com ótimos efeitos de maquiagem e miniatura. Algumas resenhas e críticas não mostraram piedade nos efeitos de computação gráfica, mas penso que eles adicionam um charme e inocência que praticamente se perderam nos filmes atuais. Qual é a sua opinião sobre os efeitos de “Plaguers”?

Obrigado pelos cumprimentos! Eu sempre quis que os efeitos de maquiagem em “Plaguers” fossem práticos. Prefiro maquiagem no set e gore em geral, e especialmente neste filme, que é tão enraizado na estética oitentista. A mesma coisa com a decisão de usar miniaturas; senti que se encaixaria melhor com o tom do filme, além de não termos orçamento para fazer elaboradas naves de CGI. Eu queria ter o mínimo de CGI possível, mas ainda acabamos com mais de 100 tomadas de efeitos visuais!

A entrevista continua com Brad falando sobre seus filmes anteriores e as dificuldades de se trabalhar em produções de orçamentos minúsculos. Até mais!

3 comentários:

Luiz Alexandre disse...

Muito legal a entrevista, cara! Pelo visto o Sykes é um sujeito muito gente boa e que curte mesmo cinema B, hein? Sinto falta disso, desse conhecimento de causa, em boa parte desses pipocões milinários de Hollywood, onde dá a impressão que os caras só viram os trabalhos mais óbvios dos diretores mais óbvios e não entenderam nada!

To doido pra ler o restante da entrevista e fiquei curioso em ver o The Plaguers e outros filmes do sujeito.

Osvaldo Neto disse...

Obrigado, Luiz!

Nightmare on Shunna's Club disse...

Finalmente vi o filme , Osvaldim e ADOREI!
Quando você "estiver" com o Brad Sykes , conta pra ele , tá?