sexta-feira, agosto 13, 2010

CHARLIE VALENTINE (2009, EUA)


O dublê cineasta ataca novamente. Em CHARLIE VALENTINE, o diretor e roteirista Jesse V. Johnson segue a trilha deixada por THE BUTCHER e embarca em outra jornada carregada de fatalismo e brutalidade. Raymond J. Barry interpreta o personagem título, que pode ser visto como uma versão mais madura do Merle 'The Butcher' Hench, interpretado por Eric Roberts. Jesse continua um diretor velha guarda, de olhos mais atentos ao roteiro e na interação entre os personagens do que em movimentos mirabolantes de câmera (aka punhetagem). A atmosfera fatalista do 'noir' e um senhor elenco de figuras queridas dos amantes de cinema policial e classe B são outros pontos fortes do filme anterior que se repetem aqui.

Charlie Valentine é um gangster sessentão, mulherengo e boa vida, que contraria os conselhos do seu agente de condicional (Tom Berenger, em participação especial) para se manter longe de encrencas. Ambicioso e sem querer saber quando parar com os roubos, ele arma um grande golpe contra Rocco (James Russo), um chefão do crime local. Charlie junta a sua turma, cheia de tipos simpáticos que, entre outros, são interpretados por Vernon Wells, Keith David e pasmem, Matthias Hues.


A noite termina da pior maneira possível, com um elevado número de corpos crivados de balas e Charlie conseguindo escapar da morte. No dia seguinte, o homem busca refúgio na casa da única pessoa em que ele pode confiar: seu filho Danny (Michael Weatherly, da série NCIS), que não via o pai há longos anos. É a partir daí que o filme passa a investir mais no reencontro de pai e filho, com o rapaz fazendo de tudo para que Charlie seja o seu mentor no mundo do crime. Os dois planejam outro roubo, desta vez envolvendo o pagamento da 'taxa de proteção' na boate de strip-tease de Ferucci (Steven Bauer), onde Danny tem ganho o seu dinheirinho sem muito suor. Os dias passam e Charlie começa a notar que perdeu boa parte de sua vida apenas pensando em si mesmo, deixando de lado o filho que agora voltou a amar. Mas como em todo bom conto 'noir', o passado não perdoa, com Rocco e seus homens continuando a caçá-lo implacavelmente.

Há algo de diferente nos principais personagens de CHARLIE VALENTINE e THE BUTCHER, que são os típicos machões do crime que estamos acostumados a ver em filmes do estilo. E esse algo é uma inesperada dose de humanidade, nos lembrando de SCARFACE, O PODEROSO CHEFÃO e UMA RAJADA DE BALAS. São personagens que não passam de vermes, mas que fogem da caricatura extrema e se transformam em caras durões de credibilidade graças ao roteiro e claro, ao elenco e direção de atores.


Ajuda muito os protagonistas Barry e Weatherly terem excelente química juntos. Dos coadjuvantes de peso então nem se fala, com Russo aproveitando bem as suas aparições ao longo do filme, num daqueles papéis espertos filmados em poucos dias e locações. Ninguém faz vermes e lixos da sociedade como James Russo. Dominiquie Vanderberg como o braço direito de Rocco e Jerry Trimble se especializando em malas sem alça completam o elenco predominantemente masculino. As presenças femininas de destaque se resumem à mulher de Danny vivida por Maxine Bahns, a morena Lisa Catara e a "Blondie" de Valerie Dillman, como duas moças que conquistaram um pedaço do coração do velho Charlie. Ganha um doce aquele que adivinhar qual das duas é a 'femme fatale'.


Pode desagradar a alguns que CHARLIE VALENTINE seja um drama com personagens e cenas de ação típicas dos filmes tradicionais de gângsters, assim como os clássicos citados no penúltimo parágrafo. E, claro, o diretor não desaponta na elegância de sua câmera a cargo de Jonathan Hall e na condução dos poucos momentos de tiroteio e violência, recheados de crueza e brutalidade, mesmo que seu orçamento seja evidentemente menor do que em THE BUTCHER. Essa falta de tempo e mais recursos também se explicita na finalização do filme, há momentos em que a edição poderia ser melhor, embora em outros ela seja inspirada, como no ataque ao armazém de Rocco.

Um híbrido de drama e ação para gente grande, CHARLIE VALENTINE era o pulo que faltava para Jesse V. Johnson ser um autor. Se ele fizer um terceiro filme com outro gângster de meia idade que também seja um personagem interessante, teríamos uma das trilogias mais curiosas a surgir no moderno cinema de gênero. Ficaremos na torcida!


2 comentários:

Ronald Perrone disse...

Assisti recentemente ao Pit Fighter, do Jesse. Achei meio fraco, mas tem seus momentos. Já The Butcher é sensacional!

Mal posso esperar pra colocar os olhos em CV também!

Osvaldo Neto disse...

Pois é, Ronald. Só depois de THE BUTCHER que Jesse conseguiu fazer seus filmes mais pessoais, junto com os trabalhos por encomenda (caso de ALIEN AGENT e HOOLIGANS 2, que ainda verei) até então dominantes em sua filmografia de diretor.

PIT FIGHTER não passa do mediano, mas foi bom ver o Jesse se exercitando antes de THE BUTCHER. Tenho certeza que um desses momentos que você curtiu foi o tiroteio perto do final, com a metralhadora. ;)