sexta-feira, fevereiro 05, 2010

FORÇA DA NATUREZA (Gale Force, 2002, EUA)

No final de 2009, o amigo Ronald Perrone escreveu sobre um de meus filmes de ação favoritos dos anos 90: O ÚLTIMO GRANDE HERÓI. Além da vontade de revê-lo, o texto também me fez enviar por e-mail um vídeo achado pelo roteirista Steve Latshaw, roteirista deste FORÇA DA NATUREZA, dirigido por Jim Wynorski. Logo na abertura deste épico do cinema, cenas do filme de John McTiernan foram editadas na sequência em que o personagem de Treat Williams foge de um grupo de criminosos. A caída de queixo foi geral entre os comentários do Dementia 13. Ronald se animou, correu atrás e o resultado foi o texto recente e muito divertido sobre RANGERS, um dos filmes mais inacreditáveis da parceria Latshaw/Wynorski.



Eu não sabia que Arnold fazia liquidação de garagem.

FORÇA DA NATUREZA não é nenhum "Frankenstein" como RANGERS e RAPTOR (já comentado aqui). Ele não passa de uma brincadeira com os reality shows que estavam começando a fazer sucesso nos Estados Unidos, principalmente SURVIVOR que originou o NO LIMITE. Até certos clichês são usados para fazer graça. Treat Williams é Sam Garrett, um policial durão enviado a uma ilha como participante de um programa chamado 'Caça ao Tesouro', onde entra na disputa por um prêmio de 10 milhões de dólares. O que ele e nem seus colegas esperavam é que o time de ex-soldados contratados pela produção para dificultar a busca pelo tesouro e o próprio apresentador tem outros planos, Os caras não querem saber de tiros de festim. Como se isso não bastasse, uma onda gigante está a caminho da ilha. Sentiu o drama? Por incrível que pareça, o filme ainda tenta se levar um pouquinho a sério, mas não muito, claro... digo isso porque alguns personagens são mortos de maneira muito gratuita. Nem mesmo eu esperava tal destino para eles.

The bad guys

O elenco de figuras carimbadas chama a atenção. Além de um divertido Treat Williams, temos os grandes Tim Thomerson (o eterno Jack Deth da série TRANCERS e Brick Bardo, em DOLLMAN) e Curtis Armstrong (o eterno Booger de A VINGANÇA DOS NERDS) como participantes do reality show. No campo feminino, Susan Walters e Tamara Davies são boas presenças (não, elas não tiram a blusa hehe) e de vilões, o subestimado Michael Dudikoff tem bons momentos como o líder dos mercenários. Um dos subordinados de Dudikoff é outro rosto familiar, William Zabka, o loirinho treinado por Martin Kove só para levar o chute mais ridículo da história do cinema em KARATE KID.

The good guys

A produção também usa outra tática dos primórdios do cinema barato, mas esta é utilizada até hoje: a participação confinada. Cliff DeYoung é o ‘nome’ que tem o papel do produtor do reality show. DeYoung só aparece uma única vez em outra locação, mas ao longo do filme ele fica no estúdio da emissora de TV. A última cena do personagem no filme de cair o queixo, daquelas que fazem a gente se lembrar de que o cinema é a arte onde absolutamente tudo pode acontecer. E é por isso que sigo vendo essas belezas ao invés de perder tempo com baboseiras intelectualóides de boteco onde não acontece nada em 10 minutos de filme. Uma coisa é certa, nos legítimos filmes B, isso nunca irá ocorrer. Sempre há algo para a nossa alegria em muito menos de 10 minutos de filme, mesmo que no fim das contas ele acabe sendo muito ruim.

Ofereço um brinde à Jim Wynorski, Steve Latshaw, Fred Olen Ray e a todos os outros autores de vários filmes que são sem vergonha sim, mas sou mais eles do que farsantes tirando onda de cineastas quando não o são. É claro que sei reconhecer títulos onde o estilo está acima do conteúdo, mas também faço questão de sempre afirmar que cinema é a arte de se fazer filmes, não quadros em movimento.

Stock Footage Cinema
Um pouco de história do cinema B e direto para vídeo para vocês

Computação gráfica não era moda e nem qualquer um tinha After Effects no computador de 1998 a 2005. Várias produtoras neste período fizeram seus filmes B de ação/ficção com cenas de tiroteio, explosões, helicópteros e etc licenciadas (ou seja, pagas aos estúdios e detentores dos direitos) de outros filmes de maior orçamento. Essa é uma prática adotada desde o início da carreira do mestre Roger Corman e segundo o próprio Latshaw, de seriados dos anos 50 que eram roteirizados a partir dessas cenas mais caras de se fazer. Os valores de produção aparentavam ser maiores e a produção em si ficava mais em conta do que muitos pensavam.

Entre os produtores do período, destacaram-se Joseph Merhi e Richard Pepin, da inesquecível PM Entertainment, com títulos como AVALANCHE e DEVASTAÇÃO EM LOS ANGELES (Epicenter). Mas nenhum deles superou a quantidade de lançamentos da Phoenician (Andrew Stevens, Elie Samaha e Alison Semenza) e Cinetel (Paul Hertzberg). Motivo: Wynorski e Fred Olen Ray eram os seus diretores. Eles ganham a vida por serem rápidos, saberem trabalhar com limitações orçamentárias e entregar os filmes no prazo ou até mesmo antes do tempo estimado. A dupla trabalhou tanto nesse período que os seus hoje já conhecidos pseudônimos Jay Andrews e Ed Raymond foram criados para as distribuidoras não reclamarem que os 4 filmes que compraram no ano eram dirigidos pela mesma pessoa. Não é para menos que eles foram os reis deste 'stock footage cinema' e fizeram a festa no período.

PS 1 - Voltei a usar os comentários do Blogger. Intense Debate causou problemas na leitura do Vá e Veja e usei o substituto do Halo Scan, o Echo, por um período de testes e ele simplesmente não funciona... além de ser pago (já aumentaram de 10 para 12 dólares ao ano). Tudo indica que irei perder todos os comentários feitos até hoje por vocês no blog. Me chamem de besta, mas isso dói no coração. Tenho grande parte exportado num arquivo .xml, tomara que haja alguma maneira de importá-los no serviço do Blogger no futuro.

PS 2 - Blogs adicionados:

CINE MONSTRO de Carlos Primati, que já podemos chamar de obrigatório, mesmo com menos de dois meses na Internet.

TED BOY MARINO
, porque nunca é demais ter mais outro espaço na blogosfera dedicado a cobrir "cinema de macho".

4 comentários:

Ronald Perrone disse...

Este post foi uma verdadeira aula de cinema B! :)

Luiz Alexandre disse...

Dudikoff como vilão?!
Obrigatório ver isso!

Eduardo Aguilar disse...

Fala Osvaldo!

Vc. deu uma aula sobre o assunto, confesso, não achava possível esse tipo de uso de imagem de filmes de tal porte em filmes de resultado duvidoso, minha questão é se o produtor e/ou o diretor não se incomodam de verem imagens criadas para um contexto serem associadas a um resultado eventualmente 'tosco'. Veja bem, eu nem vi o filme em questão e sei q. é possível q. o resultado surpreenda, mas fiquei com essa pulga atrás da orelha, tipo: pagou, levou? E o "pagou" pelo jeito é algo razoável, enfim, fiquei curioso.

Gde abraço, Edú Aguilar

Osvaldo disse...

Ainda desacostumado ao sistema do Blogger, só hoje vi que os comentários de vocês foram feitos. Valeu, Ronald, Luiz e Aguilar! Espero que vocês me perdoem por todo esse atraso para responder.

Sobre o uso das imagens, pelo que eu entendo, os filmes são dos estúdios... eles fizeram lucro com esses filmes B que usaram cenas de EXTERMINADOR DO FUTURO 2, SOLDADO UNIVERSAL, PERIGO REAL E IMEDIATO (a casa explodindo no final pode ser vista em vários filmes) e outras produções de alto orçamento.

Corman comprou sci-fi russas nos anos 60 e fez a versão americana delas com atores como Basil Rathbone e Dennis Hopper usando os efeitos desses filmes, como VOYAGE TO PREHISTORIC PLANET e QUEEN OF BLOOD do Curtis Harrington. Francis Coppola dirigiu um desses, BATTLE BEYOND THE SUN.