segunda-feira, agosto 24, 2009

OS CHEFÕES (The Funeral, 1996, EUA)


Quem conhece o cinema de Abel Ferrara sabe que seus filmes não são nada agradáveis de se assistir. Ele é um cineasta único, que imprime seu duro estilo em qualquer história que irá narrar. Roteirizado por Nicholas St. John, em sua última colaboração para o diretor, OS CHEFÕES não podia ser diferente. Desta vez, somos conduzidos a uma melancólica jornada no passado e presente de três irmãos mafiosos.

A abertura, ao som de "Gloomy Sunday", cantada pela inesquecível Billie Holliday, define o tom trágico que acompanha toda a duração do filme. Estamos no funeral que o título original se refere, o de Johnny Tempio (Vincent Gallo), morto por três disparos de revólver. Durante a cerimônia, conhecemos Ray (Christopher Walken) e Chezarino (Chris Penn), seus dois irmãos e Jean (Annabella Sciorra) e Clara (Isabella Rossellini), suas esposas. Conforme o velho código de honra da máfia, o membro da família assassinado deve ser vingado a todo o custo. Por causa disso, Ray - um homem frio e de temperamento imprevisível - tem um descontrolado desejo de vingança e suas suspeitas caem no rival Gaspare, vivido por Benicio Del Toro. Enquanto isso, Chez – o mais abalado de todos, ainda mais que a mãe deles - fica cada vez mais amargurado e violento com o passar do tempo. E o filme se segue, alternando entre acontecimentos (antigos/recentes) relacionados aos familiares antes e durante o velório.

Ray coube como uma luva em Christopher Walken, Vincent Gallo foi uma escolha apropriada para Johnny e Chris Penn surpreende como Chez. Mesmo quando não diz uma única palavra, compreendemos a dor deste personagem, pois ele sabe que já perdeu os seus dois irmãos: um foi assassinado e o outro está morto por dentro, só pensando numa maneira de se vingar. Annabella Sciorra (também produtora associada) e Isabella Rossellini comovem sendo as sofridas esposas dos protagonistas. Vale destacar que as duas belas e talentosas atrizes estão presentes em alguns dos melhores momentos do longa. Já Benicio Del Toro, mesmo aparecendo pouco, não faz feio no papel do odioso Gaspare. E finalizando, ainda temos as pequenas participações dos injustiçados Victor Argo e Robert Miano.


Abel Ferrara é aquele cara sem meio-termo: ou se gosta ou se odeia. A direção desconcertante do cultuado cineasta americano, que praticamente joga os eventos passados junto aos presentes, causa estranheza, nos fazendo "decifrar" o que se está vendo no momento. E nem espere tiroteios como em O REI DE NOVA YORK, trabalho que solidificou a parceria de Christopher Walken com o diretor em mais outros dois filmes THE ADDICTION e ENIGMA DO PODER. OS CHEFÕES está mais para um sombrio estudo de personagens, pessoas afetadas pela violência na qual convivem diariamente, seja ela de forma física ou psicológica. Ou seja, trata-se de um filme de gangsters bem diferente do que acostumamos assistir.

Com cenas intensas amparadas pelo belo elenco, OS CHEFÕES é uma verdadeira tragédia grega envolvendo uma família de criminosos nos Estados Unidos dos anos 30. Julgando pelo resultado final, fica impossível não concordar que Ferrara mostrou novamente toda a sua habilidade para gerar incômodo.

NA: 1 - Resenha dedicada em memória de Chris Penn, falecido no dia 24 de janeiro de 2006. Sem dúvidas, um ator subestimado que merecia maior reconhecimento.

2 - O DVD nacional, lançado pela LW Editora (NBO), apenas apresenta sinopse, biografias, seleção de cenas, legendas (português/espanhol) e idiomas (inglês/português, stereo 2.0). O filme é apresentado com imagem de VHS em fullscreen. Há duas falhas consideráveis que evidenciam o descuido: A primeira é logo no menu de idiomas/legendas onde a imagem escolhida foi justamente a de um dos personagens morto violentamente, enfim, um famoso SPOILER. A segunda se encontra nas biografias, o usuário deve selecionar o nome de Christopher Walken para ler sobre Chris Penn e vice-versa. Antes de meter bronca, fui verificar a edição americana no Amazon.com. E não é que ela vem em fullscreen e pelada do mesmo jeito?

Texto escrito para o site Erotikill, adaptado em 24.08.09

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