terça-feira, janeiro 29, 2008

Esses ingleses...

GET CARTER (1971)


O primeiro filme de Mike Hodges nem parece obra de um diretor iniciante. E não é para menos que GET CARTER seja não só considerado um clássico dos filmes de crime britânicos, mas também do próprio cinema britânico. Após uma rápida introdução onde somos apresentados ao ambiente de vida e trabalho de Jack Carter (Michael Caine), o espectador acompanha ele a caminho de Newcastle num trem. Carter é matador profissional para uma máfia de Londres e recebe a notícia de que seu irmão fora encontrado morto em um acidente de carro. Carter não aceita essa versão e sai investigando e coletando informações sobre a vida do irmão, além de cuidar da filha dele, uma garota por quem Carter nutre um sincero carinho. Durante a investigação, ele acaba na cama de uma amiga dos mafiosos de Newcastle e acaba vendo algo nada agradável envolvendo a sua sobrinha. Aí o bicho pega, pois Carter não busca redenção ao final de sua vingança como nós vemos em outros filmes do subgênero. Ele só irá se sentir melhor quando executar todos os responsáveis pela morte do irmão.

As quase duas horas de duração de GET CARTER são uma recompensadora experiência para qualquer fã do estilo e de cinema britânico. Michael Caine tem uma soberba atuação, daquelas que a gente percebe que o ator realmente entende o seu personagem e está em absoluta sintonia com o ritmo da narrativa. Digo isso porque o filme tem alguns momentos levemente cômicos para o espectador ficar mais relaxado. Mas a brutalidade toma conta do segundo ato da história até a sua inesperada conclusão que encerra o filme com maestria e só faz ele ser ainda mais brilhante. O ótimo elenco de apoio ainda conta com a gatinha da Britt Ekland que tem uma cena muito interessante e a trilha sonora de Roy Budd é primorosa. Se eu soubesse assobiar direito, sairia por aí mandando ver na clássica música-tema que Budd compôs para este indiscutível filmaço. GET CARTER inspirou centenas de filmes de vingança e fez com que a produção cinematográfica da Inglaterra investisse em filmes que buscassem ser mais realistas como ele.

Existem duas outras versões oficiais do livro que o originou, JACK'S RETURNS HOME de Ted Lewis: um blacksploitation de 1972 chamado HIT MAN e O IMPLACÁVEL (Get Carter, 2000), produção americana protagonizada por Sylvester Stallone, que tem Michael Caine como Cliff Brumby, papel que fora de Brian Mosley nesta versão que aqui comento.

Agradecimentos à amiga Silvia pela cópia do filme.

DEAD MAN'S SHOES (2004)


Shane Meadows é o cara! Com um roteiro escrito por ele e o ator Paddy Considine (que também protagoniza a produção), um orçamento limitado e poucos atores, esse novo nome do cinema britânico conseguiu fazer um dos melhores filmes saídos do seu país em décadas. DEAD MAN'S SHOES relata a volta do soldado Richard (Considine) para a sua cidade natal. O seu irmão Anthony (Toby Kebbell, perfeito) é deficiente mental e sofreu uma grande maldade nas mãos de uma gangue enquanto Richard estava fora. Enquanto protege o irmão, Richard planeja a sua brutal vingança com as táticas aprendidas no exército.

A produção pode ser vista como filhote de GET CARTER, mas ao contrário deste, DEAD MAN'S SHOES é um conto moral. Eu ainda acho que ele consegue ser bem mais sombrio e violento do que o próprio clássico de Mike Hodges. Por ser tão realista e não exagerada, sua violência realmente assusta. O espectador ainda dá umas risadas com as conversas estúpidas que os membros da gangue tem, só que quando Considine entra em cena não há mais motivo para esboçar um simples sorriso no rosto. Trata-se de um imperdível desempenho vindo de um dos melhores atores da nova geração.

Atenção para o espetacular uso da música, a fotografia nas cenas de flashback que não tem nada de muleta narrativa e são perfeitamente justificadas, a fantástica cena da "bad trip" e as ótimas atuações de alguns atores que fazem os membros da gangue. Enfim, tudo que faz uma pequena produção de baixo orçamento feita com garra e coragem ser um grande filme. Recomendadíssimo.

Preciso ver mais de Shane Meadows. O melhor de tudo é que já estou com ERA UMA VEZ UMA FAMÍLIA e THIS IS ENGLAND no gatilho.

Agradeço ao mano André ZP pela preciosa dica.

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