segunda-feira, dezembro 17, 2007

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006, EUA)


O final de semana foi inesquecível. Eu só queria saber é de ver bons filmes numa sala escura de cinema, mais precisamente a do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco que ainda está exibindo a sua programação normal da Expectativa 2008. A mostra de final de ano já tem tradição entre os cinéfilos recifenses e a coisa mais comum é "esbarrar" em conhecidos do ramo nas filas ou dentro das sessões. Vi 4 filmes, sendo que dois títulos eram mais do que esperados por mim: À PROVA DE MORTE e IMPÉRIO DOS SONHOS. Tentarei conversar um pouco com vocês sobre o último porque ele está consumindo a minha pobre cabeçinha desde as 21hrs de ontem, o horário de minha saída da sessão. Repararam que eu usei o verbo tentar no início da frase anterior? Não é para menos. Não é para menos mesmo.

Me sinto muito confuso em relação aos primeiros sentimentos que tenho a respeito deste mais novo trabalho de David Lynch, realizado cinco anos após ele ter cometido o maravilhoso CIDADE DOS SONHOS. Trata-se de um misto muito incomum de satisfação com decepção em relação a um filme que não tenho há anos. IMPÉRIO DOS SONHOS era o filme mais esperado de todo o ano de 2007 pela minha pobre pessoa, daí me aconteceu isso. Pode ser que uma revisão dê algum jeito nessa visão torta que tenho do filme, mas acredito que isso não deva ocorrer. Se você gosta de Lynch e está aberto a dedicar três horas de sua vida numa grande viagem, vá em frente. Se você for entusiasta de cinema digital e não gosta de Lynch, então você está ferrado, pois terá de ver esse filme de qualquer jeito para saber do poder que uma PD-150 tem e ninguém sabia.

A história do roteiro amaldiçoado a ser dirigido por Kingsley Stewart (Jeremy Irons) com os atores Nikki Grace (Laura Dern) e Devon Berk (Justin Theroux) é puro pretexto para Lynch nos jogar em mais um dos seus pesadelos filmados, só que desta vez captados em vídeo. E que beleza ver Lynch tão fascinado com a câmera na mão, a ponto da gente notar quando é ele que está operando ela, como muito bem disse o amigo André ZP no seu inspirado comentário onde também elogia merecidamente a total entrega de Luara Dern ao seu papel. O filme inteiro é dela. Ainda assim, Irons, Theroux e Harry Dean Stanton (que protagoniza momento marcante) não desapontam.


Eu disse a mim mesmo que não ficaria encucado tentando entender o filme, mas foi impossível. Só fui desistir e me deixar levar pela viagem um pouco tarde demais, cerca de 1h20min de exibição, quando Lynch já tinha nos soltado na escuridão e no delirante surrealismo do mundinho que habita a sua mente perturbada há um bom tempo atrás. É até chato falar isso de um filme do qual eu apreciei muita coisa, mas IMPÉRIO DOS SONHOS me fez ficar olhando pro relógio altas vezes em algumas de suas muitas tentativas de deixar o espectador desconfortável e desnorteado com o que está vendo. Isso não me aconteceu com A ESTRADA PERDIDA de onde Lynch tenta resgatar o clima aterrador e fantasmagórico de constante tensão sem o mesmo sucesso. Ainda há alguns momentos dignos de filme Trash (o que raios é aquela cena do rosto??) onde eu tive de rir junto com pessoas do público por vê-los sendo levados tão a sério. Ah, eu também achei aquelas cenas com o (suposto?) psicólogo um verdadeiro saco.

De positivo, destaco a trilha sonora com canções bem escolhidas mais uma vez e os atores conhecidos fazendo participações especiais. Dentre eles, Grace Zabriskie, Diane Ladd (mãe de Laura Dern, aqui em seu segundo filme com Lynch e a filha), William H. Macy, Naomi Watts (como a voz de um dos RABBITS) e as belezuras Laura Harring e Natassja Kinski. Só fui me ligar que Natassja estava no filme por causa dos créditos finais, será que eu viajei legal? hehe.

IMPÉRIO DOS SONHOS pode não ser metade de A ESTRADA PERDIDA e CIDADE DOS SONHOS, mas ele realmente marcou 2007. Várias pessoas (mais de 10, creio) saíram da sala lotada em que eu me encontrava para dar lugar a outras que pararam o estado de transe em que se encontravam para ocupar os lugares. O retorno de Lynch é uma experiência tão radical que só posso comparar a que eu tive este ano na tela grande com BUG. Ver esses dois monstros mandando bala no mesmo ano fez um bem danado ao meu coração cinéfilo. :)

Er... vejo agora que corro sério risco de ser Lynchado por causa de algumas de minhas palavras, mas tudo bem hehe.

PS aka Osvaldo destilando um pouco de sua cultura inútil:

1 - Diane Ladd fez uma cientista louca que quer dominar o mundo com dinossauros gigantes em CARNOSSAURO, produção de Roger Corman feita nas pressas pra faturar em cima de JURASSIC PARK, lançado no mesmo ano e protagonizado por Laura Dern.

2 - Dois atores B fazem rápidas aparições no filme. Cameron Daddo, o astro de PTERODACTYL, faz o agente do personagem de Justin Theroux. Stanley Kamel que está numa das cenas que achei dispensáveis é mais lembrado por mim de sua participação em AUTOMATIC, imitação até divertida de ROBOCOP e EXTERMINADOR DO FUTURO com Olivier Gruner e John Glover.

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