sábado, setembro 29, 2007

TRAMA DIABÓLICA (Sleuth, 1972, ING)


A primeira vez que eu vi TRAMA DIABÓLICA foi durante um período de férias na minha adolescência. Aí eu vivia dormindo de tarde para ficar acordado a madrugada toda vendo e gravando fitas e mais fitas VHS sem comerciais. Foi assim mesmo que conheci obras como BULLIT, DIRTY HARRY e dois filmes do De Palma que são responsáveis por muita coisa do meu gosto hoje em dia: SCARFACE e A FÚRIA. Minhas fitinhas faziam sucesso entre a gurizada, tanto que acabei perdendo algumas depois. Fiquei puto quando percebi o "sequestro", mas depois pensei que mais pessoas poderiam ver aqueles filmes que eu tanto gostei além dos "raptores". Por causa dessa minha santa ingenuidade na época, deixei tudo pra lá pensando que seria mais fácil pegar alguns filmes de novo nas locadoras para copiá-los novamente. Mal completei 16 anos e fiquei desesperado por ver as minhas principais fontes de cultura cinematográfica fechando as portas nos subúrbios que elas se localizavam. Ainda bem que eu consegui recuperar altas coisas daqueles tempos na minha coleção.

Se bem me recordo, assisti a esta pérola com Laurence Olivier e Michael Caine numa madrugada de domingo para segunda na Band e com legendas em português. Foi o bastante para considerá-lo como um dos meus filmes favoritos. Me deliciei com ele do início ao fim, mesmo tão jovem e sem entender direito uma coisa ou outra por causa do sono que estava vindo, mas eu insisti em ver aquele filme até o fim. E como valeu a pena! Foi numa muito recente solitária e preguiçosa sessão doméstica de domingo que tive a companhia de Olivier e Caine novamente durante aproximadas 2h20 de puro encantamento cinéfilo.

Que maravilha de filme é TRAMA DIABÓLICA. A excelência do roteiro de Anthony Shaffer (simplesmente, o autor de O HOMEM DE PALHA e FRENESI) baseado na peça do próprio é inegável e Joseph L. Mankiewicz estava inspiradíssimo na direção deste seu testamento cinematográfico. O filme é a união de dois seres que possuem o poder de ler uma lista telefônica e deixar a gente de boca aberta com duas mentes abençoadas que nasceram para contar e criar histórias.

Na produção, o jovem Milo Tindle (Michael Caine) é convidado pelo premiado escritor Andrew Wyke (Laurence Olivier) para passar uma tarde na sua mansão e resolverem assuntos pendentes. Milo é nada menos que o amante da esposa de Andrew. Não demora muito para que ambos travem com o outro um autêntico e maligno duelo de egos, inteligência, poder e masculinidade. A nós, simples mortais, só resta acompanhar com prazer o desenrolar deste surpreendente jogo de gato e rato.


Nada é o que parece em TRAMA DIABÓLICA, um daqueles raros filmes onde tudo funciona que é uma beleza. A direção de arte também deixa o expectador deslumbrado, pois a decoração na mansão do Andrew se revela estranha e conservadora ao mesmo tempo. Aqueles bonecos por si só chamam a nossa atenção. A memorável trilha sonora de John Addison complementa muito bem todo o clima irônico do filme e a cinematografia de Oswald Morris é um arraso.

Vou chover no molhado e dizer mais uma vez que o texto do Anthony Shaffer é brilhante. Com excelentes reviravoltas e tantos diálogos afiadíssimos, o fã de cinema só pode ir ao delírio. E eu não consigo imaginar melhores atores do que Caine e Olivier para representar aqueles dois personagens tão maquiavélicos.

Mas eu só sei de uma coisa. Depois de TRAMA DIABÓLICA, tenho a mais absoluta certeza que você vai passar a entender como poucos o significado da expressão "quem ri por último ri melhor".

PS: O filme ganhou uma refilmagem recente do cineasta Kenneth Branagh com Jude Law fazendo o papel de Michael Caine e com Caine no lugar de Laurence Olivier. Estou curioso, embora com o pé atrás ao mesmo tempo pela sua curtíssima duração de 86 minutos. O título nacional é o vergonhoso UM JOGO DE VIDA OU MORTE e a produção será exibida na MOSTRA BR DE CINEMA em São Paulo deste ano.

Um comentário:

ANDRÉ PHELIPE disse...

9 anos depois de sua publicação, eis que encontro alguém falando desse filmaço, eu vi o filme mais ou menos em 72 e nunca mais esqueci, me vi atras de ver filmes nas madrugadas,