domingo, setembro 23, 2007

SANTIAGO: UMA REFLEXÃO SOBRE O MATERIAL BRUTO (2007, BRA)


O cinema de documentário não está muito presente aqui no blog, talvez pelas minhas tentativas de me afastar um pouco de filmes mais secos e realistas esses tempos. Penso que é nesse gênero onde nós temos vários contatos inesquecíveis com cenas ou personagens da vida real. Mas isso apenas ocorre nos bons filmes, lógico. Desgraças como O SEGREDO só servem para denegrir o estilo.

Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que não tenho a mínima aproximação com os documentários do João Moreira Salles. Esse foi o primeiro deles que assisti e creio que ele deva ser um dos filmes mais difíceis que eu vi desde que abri o VÁ E VEJA. A primeira oportunidade que pintou para falar sobre ele foi na caixinha de comentários de um dos últimos posts do DIÁRIO DE UM CINÉFILO, querido blog mantido pelo meu comparsa Ailton Monteiro. Lá, eu disse que SANTIAGO ainda estava em processo de digestão desde quando o vi na tarde da última segunda-feira e que ele era um belo filme. Mas mencionei também de que o documentário poderia ser recebido com indiferença por algumas pessoas, apesar dele ser realmente bom.

João Moreira Salles queria fazer um filme sobre Santiago Merlo, o mordomo da família Salles que o acompanhou durante parte da sua infância até ele virar adulto e sair de casa. Ele passou 5 dias filmando esse sereno, sincero e gentil senhor em 1992, no pequeno apartamento onde morava no bairro do Leblon. Santiago colecionava algo muito especial: a sua escrita. Como vemos no filme, o aposentado mordomo tinha cultura de sobra e ainda se orgulhava da capacidade que ainda tinha de memorizar as coisas com sua idade já um pouco avançada. Resumindo, trata-se de um personagem impressionante.

Salles também filmou cenas adicionais em estúdio, mas não conseguiu terminar dar uma conclusão ao filme. SANTIAGO, como o próprio subtítulo afirma, fala de Santiago, do processo de realização do documentário e da infância do diretor ao mesmo tempo. Quem narra a produção é Fernando Moreira Salles, irmão de João. Desconheço se o documentarista já narrou algum dos seus filmes, mas ainda bem que isso não ocorre aqui. Não acho que João teria segurado as fortes emoções quando fosse ler o seu texto no estúdio. Pegar todo aquele material e ver e rever tudo de novo para fazer uma edição deve ter doído demais no coração.

Além de difícil, o filme incomoda num ponto. A maneira como o João Moreira Salles tratou o seu antigo mordomo durante as filmagens é nada menos que grosseira. Pelo menos, o próprio diretor assume isso ao não cortar o áudio de sua voz e (creio eu) mostra arrependimento por não ter dado a atenção e o carinho que Santiago merecia. Minha maior restrição com o filme é essa, mas a verdade é que não me sinto muito à vontade enquanto escrevo estas linhas sobre ele. Vai ver que isso ocorre por eu me importar mais com o personagem Santiago do que com o resultado final deste projeto de Salles também chamado de Santiago.

Um belíssimo momento do filme é justamente uma cena de outro filme, A RODA DA FORTUNA (The Band Wagon, 1953), o favorito de Santiago. Trata-se de um musical dirigido por Vicente Minelli com Fred Astaire e Cyd Charisse. Quem não gostar do documentário, pode não achar que gastou dinheiro de ingresso à toa só pelo prazer de ter visto esse pequeno, mas sublime momento de puro cinema.

Agradecimentos especiais ao Cinema da Fundação Joaquim Nabuco pelo convite.

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