quarta-feira, agosto 29, 2007

POSSUÍDOS (Bug, 2006, EUA)


Dá-lhe, William Friedkin!

Só mesmo uma associação com o seu mais famoso e polêmico filme para fazer a sua mais nova cria garantir uma boa circulação de cópias nos multiplexes de todo o Brasil. Digo isso meio que chutando, mas acredito que isso esteja acontecendo mesmo, já que POSSUÍDOS entrou em cartaz nos três maiores multiplexes de Recife. Não esperava sair da minha casa no último sábado para assistir a algo como ele numa sala mais comercial, um filme que é pequeno, simples, complexo e estranho ao mesmo tempo. Só por isso já vemos o quanto ele se revela especial entre os outros títulos que estão em cartaz.

Acredito que apreciaria mais BUG (isso mesmo, não vou mais falar o genérico e pavoroso título nacional daqui por diante) se eu não tivesse criado tanta expectativa desde a sua exibição em Cannes. Mesmo sabendo que ele era baseado numa peça, eu não esperava também que ele fosse tão teatral em muitos momentos. É mais por conta destas razões puramente pessoais que não consigo esconder de vocês esse pequenino sentimento de decepção a um dos filmes que eu mais esperava assistir este ano.

Em BUG, temos uma protagonista que é totalmente o oposto do que o público costuma ver nos multiplexes. A rotina diária de Agnes White (Ashley Judd, memorável) é a seguinte: ela trabalha como garçonete de um bar para voltar à noite e tomar porres homéricos de vinho e se drogar sozinha ou com a amiga lésbica R.C. (Lynn Collins) no apartamento de motel em que mora. R.C. apresenta a ela um ex-militar chamado Peter Evans defendido com muita garra pelo excelente Michael Shannon, cuja atuação é uma das maiores razões pra se ver o filme. Peter afirma para Agnes que não quer ir para a cama com ela, mas isso será inevitável, já que ambos são pessoas muito carentes não só de sexo, mas de uma companhia, uma amizade. As coisas começam a mudar quando a moça percebe que Peter está obsessivo com insetos que nem ela e o expectador consegue ver. Piorando tudo, temos a presença do ameaçador Jerry (Harry Connick Jr.), ex-marido de Agnes que acaba de sair do presídio.

Como o filme não tem medo de esconder as suas raízes teatrais, mais de 90% de sua duração total é passado dentro do pequeno apartamento com os personagens de Judd e Shannon dialogando constantemente. Esse último reprisa o papel que vem fazendo há 2 anos no teatro com a peça que originou o projeto e o resultado impressiona. Shannon é um daqueles raros tipos de atores que se entregam por completo ao personagem, sem qualquer receio de parecer ridículo. Sua atuação em BUG é um dos grandes momentos do cinema vistos em 2007. Já Judd se afasta pra valer daquele único personagem que vinha fazendo em filminhos de suspense pra consumo rápido. Nunca fui com a cara da atriz, mas depois deste filme darei mais chances para ela, ainda que Shannon a carregue um pouco nas costas. Não podemos esquecer de mencionar a ótima participação do músico Harry Connick Jr. mostrando outra vez que também deve ser levado a sério como ator. Não é qualquer um que cause tão boa impressão com um tão limitado tempo em cena.

Tudo funciona muito bem graças à William Friedkin, lógico. A fúria e a calma andam estranhamente juntas na sua condução para uma história de amor nada convencional como esta. O que ele fez com os poucos recursos que teve não é nada menos que admirável. Todo o projeto pode muito bem ser visto como Friedkin encarando um desafio, afinal estamos falando do diretor que simplesmente dirigiu duas das melhores perseguições automobilísticas de toda a história do cinema. Não penso que ele tenha encarado uma produção com o orçamento que teve em BUG, um terror psicológico dos menos caretas já feitos.

Creio que a gente tem mais costume de conferir filmes assim em cinemas alternativos ou no conforto do nosso quarto. Mas ao ver um BUG numa sala convencional, temos a chance de nos divertir com alguém como o sujeito que se levantou de uma cadeira a frente da minha e mandar um sonoro ESSE FOI O PIOR FILME QUE EU VI NO ANO hehehe. Recebi ontem a notícia de que BUG entrará em cartaz no Cinema da Fundação aqui em Recife. Com certeza, farei de tudo pra revê-lo outra vez antes que ele pare de ser exibido nesta excelente sala.

O melhor filme teatral do Wiliam Friedkin continua sendo a sua fantástica versão para TV de 12 HOMENS EM UMA SENTENÇA, um dos clássicos que Sidney Lumet deu para todos nós. Trata-se de um dos dois filmes que me fizeram perceber que cinema era muito mais do que eu imaginava quando era mais novo, ao deixar de ser criança para virar adolescente. O outro foi nada mais nada menos que o soberbo, o lindo, o maravilhoso TRÊS HOMENS EM CONFLITO. Devo muito a Leone e Friedkin pela relação com o cinema que tenho desde aquele período marcante de minha vida.

PS: Dois monstrinhos completam aniversário hoje. Por coincidência, vi no IMDB que Friedkin completou 72 anos de idade! Nossa... a julgar por sua direção furiosa e rebelde em BUG, ele nem parece ter essa idade. E o outro é o blog DIÁRIO DE UM CINÉFILO que completa 5 anos de existência. Já parabenizei o Ailton Monteiro por esse grande feito, mas sendo fã do seu belíssimo trabalho semanal, eu não posso deixar de fazer essa pequena homenagem por aqui também.

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