segunda-feira, maio 07, 2007

Cine-PE: 27 de abril

A noite de sexta-feira foi a mais tumultuada e cheia de gente dos três dias em que participei do Cine-PE 2007. Simplesmente por causa de duas coisas:

1 - Era sexta-feira.
2 - Presença confirmada de Rodrigo Santoro na apresentação do longa NÃO POR ACASO.

Pronto, aí fudeu. Pense na quantidade de tietes que estavam presentes em todos os lugares. Nas filas, nos pátios, na praça de alimentação e nas cadeiras, só se falava de Rodrigo Santoro. Aliás, esse é um reflexo da extensa maioria do público do festival. Você pode dar uma chegada perto da entrada e raramente se pode ouvir alguém falando de cinema ou trocando alguma idéia sobre os filmes que acabou de ver no intervalo. É por causa deste grande fluxo de pessoas que o evento acontece no Teatro Guararapes, localizado no Centro de Convenções de Pernambuco em Olinda. Há casos em que a acústica do local prejudica alguns filmes, mas esse ano foi bem melhor e só tive mais problemas com um dos títulos exibidos, o documentário de curta-metragem A ENCOMENDA DO BICHO MEDONHO. Outra particularidade do grande público de festivais como o Cine-PE é bater palmas para qualquer coisa que tenha início, meio e fim que esteja no telão sem ser os comerciais.

Como eu estava acompanhado de amigos e colegas da minha turma na faculdade e ainda me encontrei com gente que conheço de fora, bati uns papos legais e fui apresentado a mais outras pessoas. Aliás, foi no Cine-PE que fui apresentado a uma das minhas ex-namoradas. Uma coisa bacana e que gosto muito do evento é que ele reúne mesmo várias pessoas que gostam de cinema e que trabalham no ramo. Pernambuco está se fortalecendo cada vez mais em termos de produção audiovisual. Quem sabe algum dia desses eu mesmo invente algo só pra botar minhas mãos numa câmera e o Estado ter mais uma figura fazendo cinema? hehehe. Minha cabeça tá uma doidera só esses tempos... vai que daí nasce uma idéia interessante.

Vamos aos comentários, desta vez de uma maneira bem diferente dos posts anteriores que vocês acompanharam. A noite começou com O SAPO, um curta-metragem infantil feito pelo carioca Adolfo Sarkis. Na hora estranhei, mas depois saquei a onda. Se um curta destinado a um público tão restrito entra num festival como o Cine-PE ao lado de tantos outros filmes de conteúdo adulto, é porque ele agrada em cheio aos dois públicos. Ainda bem que minha previsão estava correta e o filme acabou sendo mais legal e simpático do que o esperado. Não tem como não se divertir e voltar aos tempos de criança com a história do garoto que só quer participar de uma peça interpretando o Sapo (daí o título) por estar a fim de uma garota popular do colégio que interpreta A Princesa. O SAPO é bem leve, despretensioso e divertido, justamente como vocês devem estar imaginando. O diretor Adolfo Sarkis merece parabéns pela boa condução do filme, pelo roteiro objetivo e a paciência que se deve ter sempre quando se trabalha com crianças.

A ENCOMENDA DO BICHO MEDONHO do paraibano André da Costa Pinto foi outro filme que explicitou o problema que a organização do evento enfrenta com a acústica do Teatro Guararapes. Ele fala de um senhor de seus 95 anos incrivelmente lúcido chamado David Ferreira. Eu não consegui entender muita coisa do que os entrevistados falavam, além do filme sofrer um pouco de falta de foco, característica de realizadores iniciantes em documentário. A ENCOMENDA DO BICHO MEDONHO faz parte do projeto REVELANDO OS BRASIS, que promove a inclusão e formação audiovisual para moradores de municípios brasileiros com até 20 mil habitantes. É com esse pequeno registro da vivência do seu David que não deixamos de conhecer o seu talento, já que ele faleceu no último dia 6 de abril.

Logo depois foi a vez de JOYCE, curta-metragem de ficção paulista dirigido por Caroline Leone (será que ela tem parentesco com o Mestre??) que registra um pouco do amadurecimento de uma garota de 12 anos residente em uma favela da grande São Paulo. Pessoalmente, ele não fez muito o meu gênero e me sinto até cansado com filmes assim, que parecem não ter algo de diferente para se dizer. Vai ver ando querendo notar segundas intenções em um filme que não as tem. Resumindo... muitos gostaram e acharam válido, para mim foi mais do mesmo. Podem me chamar de insensível rs.

NO RASTRO DO CAMALEÃO é a estréia de Eric Laurence (do marcante ENTRE PAREDES), cearense radicado pernambucano, no cinema de documentário. Com alguns momentos de notável criatividade do realizador, o filme fala do cotidiano da banda cabaçal Irmãos Aniceto onde eles falam de maneira bem descontraída e sincera sobre a relação deles com o cinema nacional e vários outros assuntos. Tem uma cena onde um deles vai à feira livre dar uma paradinha num camelô para comprar um CD. Como fã de faroeste italiano, não pude deixar de reparar nas capinhas de TRINITY E SEUS COMPANHEIROS e UM DÓLAR ENTRE OS DENTES nos DVD's piratinhas que estavam em venda lá. ;-)

Já O HOMEM-LIVRO é uma pérola, tanto o filme quanto o personagem que o protagoniza. Evando dos Santos tem 42 mil livros guardados em sua casa, localizada em um subúrbio do Rio de Janeiro, para serem transferidos a uma biblioteca desenhada por Oscar Niemeyer. Pelo pouco que conheci dele no documentário, Seu Evando é uma daquelas pessoas que me fazem ter mais esperança neste país em que a gente vive. Ao invés de fazer o espectador se distrair com outras coisas, a diretora Anna Azevedo se utiliza muito bem do único espaço mostrado em seu filme: a casa de Evando. Com todos os livros, ela acaba virando outra personagem no curta. Seu Evando foi aplaudido em massa quando disse de forma bem descontraída que Paulo Coelho era a Xuxa da literatura brasileira hehehe. Ótimo.

O último curta-metragem da noite foi para mim o mais ousado de todos os dias em que eu participei do Cine-PE. EISENSTEIN é outro filme pernambucano a apresentar uma história de amor no festival. Longe de ser apenas isso, ele é uma homenagem escancarada ao cinema e a Sergei Eisenstein, um dos primeiros Mestres da sétima arte. O amor pelo cinema dos três diretores Raul Luna, Leornardo Lacca e Tião (que também atua no filme como protagonista) é visível e o resultado final impressiona e empolga ao mesmo tempo. Achei a inesperada montagem final simplesmente absurda de tão boa. Fiquei orgulho pelo pessoal da Trincheira Filmes e esse belo filhote, que venham os próximos!!

Depois do intervalo, voltei ao Teatro Guararapes o mais depressa que pude para não perder a homenagem do Cine-PE e do Canal Brasil ao grande diretor de fotografia Dib Lufti, responsável pela câmera de filmes como FOME DE AMOR, TERRA EM TRANSE e COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS. Lufti sofreu um enfarto recentemente e está se recuperando bem desse susto que tomou. Para não arriscar a sua saúde, ele preferiu não viajar e quem recebeu o Calunga em mãos foi nada mais nada menos que outro grande do nosso cinema, Nelson Pereira do Santos. Lufti gravou um depoimento para agradecer a todos do evento pela homenagem. Ele estava visivelmente muito emocionado, derramando até algumas lágrimas ao afirmar o quanto é difícil de se fazer cinema aqui no Brasil. Foi um momento lindo e memorável do Cine-PE, mesmo que o homenageado não estava presente em físico no festival.

A seguir, foi a vez da equipe do longa-metragem NÃO POR ACASO entrar no palco através dos bastidores por causa de Rodrigo Santoro e a fúria das tietes que pagaram ingresso só pra vê-lo pessoalmente e de longe. Não me lembro direito se foi antes ou depois da apresentação da equipe antes do filme começar que vi Nelson Pereira dos Santos sair de fininho em meio ao tumulto que se instalou naquela sala com os fotógrafos e fãs tirando fotos e mais fotos de Santoro e das belezas femininas de Letícia Sabatella e Branca Messina (estreante em longas). Seu Nelson passou bem próximo de mim e fiquei tentado a falar com ele e receber um aperto de mão deste homem que respeito tanto. Não sei se eu seria bem recebido por ele ou não. Isso vou ficar sem saber. Será que Nelson ficaria incomodado com o pequeno chamado de um jovem que queria apenas dizer-lhe o quanto adorou finalmente conhecer BOCA DE OURO e se emocionar novamente com a saga de Fabiano, Sinha Vitória, Baleia e os meninos? Tomara que haja uma próxima vez, garanto que essa timidez besta não vai me controlar de novo.

Sobre NÃO POR ACASO, eu deveria ter saído da sala junto com Nelson. Acho que estou ficando cada vez mais chato com filmes pretensiosos como esse. É sério, eu não aguento mais qualquer filme que tenha algum acidente automobilístico tendo relação com quase todos os seus personagens. Já teve AMORES BRUTOS, 21 GRAMAS, CRASH... chega!! Só esse fato e o barulho da sala antes da apresentação me fez perder grande parte da atenção que o filme e os personagens poderiam ter da minha pessoa. Mas isso foi o de menos, constrangedor e ridículo foi ver o público pagante sendo praticamente expulso das suas cadeiras para os membros da equipe assistirem o filme como o público. Porra, eu queria ver se fosse comigo, eu não sairia e ainda deixava claro pra todos que quisessem ouvir que paguei por aquele lugar para assistir a droga daquele filme. Sou um cara até considerado calmo, mas se mexer comigo, leva. Qual era o papel que a organização deveria ter? Deixar aqueles lugares reservados e quem fosse se sentar lá seria avisado da reserva. Pronto, aí tudo ficava bem. Eu saí da sala com 1h de filme, pois senti que a experiência de estar lá não tava me adicionando em nada, além de me sentir desapontado com o que aconteceu. A apresentadora Graça Araújo ainda deu umas meladas nesta edição de sexta-feira nas apresentações de NÃO POR ACASO e EISENSTEIN que nem quero me lembrar agora.

Tirando o final anti-climático da minha passada pelo Cine-PE, valeu a pena aparecer naqueles dias por lá. Teve muitos títulos de curta-metragem que gostei muito de ter conhecido e assisti um dos melhores longa-metragens da nossa safra recente, além de fazer pela primeira vez em toda a minha vida a cobertura de um festival reconhecido nacionalmente (com um certo atraso, é verdade) através deste espaço que tanto me faz bem e prazer de manter no ar. Muito obrigado mesmo a todos que já nos visitaram algum dia e que continuam visitando o VÁ E VEJA para conferir as minhas impressões. Se não fosse por vocês e pela minha iniciativa de virar blogueiro, eu nunca teria tido essa primeira experiência. Até a próxima!

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