segunda-feira, maio 21, 2007

Falando um pouco sobre como estou no momento, a inauguração da sala alternativa Fernando Spencer e MARIA de Abel Ferrara

A vida é mesmo uma coisa engraçada de tão imprevisível. Se eu tivesse escrito esse post na sexta-feira, teria dito que várias coisas bacanas tinham acontecido comigo de terça-feira passada até aquela data tirando uma chateação que tive no sábado anterior ao último. Tive uma notícia bem chata sexta-feira antes de ir pra faculdade, mas este sábado e o dia de ontem foram simplesmente ótimos. Junto com o que aconteceu de bom na semana passada e no sábado, no domingo e ainda ao ler e responder a mensagem que minha amiga Rosana deixou no último post hoje, tenho certeza de que o meu gás está voltando mesmo. Não, ainda não consegui aquele emprego ou estágio para melhorar a minha situação, mas o importante é que tudo isso injetou uma boa dose de ânimo na minha pessoa. Um dos acontecimentos que fizeram isso comigo foi estar presente na noite da última quinta-feira na inauguração da Sala Fernando Spencer no Cine Rosa e Silva, um cinema de bairro localizado no empresarial Executive Trade Center na Av. Rosa e Silva, uma das mais conhecidas de Recife. A sala é mais uma da cidade a se dedicar ao cinema alternativo e o primeiro filme que entra em cartaz lá é uma obra especial intitulada MARIA, do verdadeiro "outsider" Abel Ferrara. Quem será responsável pela curadoria do local é a jornalista e produtora cultural Carol Ferreira.


Chegando lá um pouco antes da hora para não ser pego de surpresa, tomei um expresso na maior tranquilidade. Depois dei uma olhada nos posters e material publicitário que podem ser encontrados pelos corredores do ETC. Dentre eles destaco A ÚLTIMA CARTADA, o novo filme de Joe Carnahan (do visceral NARC) que quero muito ver na tela grande. Eu conhecia muita pouca gente dos presentes, aquelas pessoas com quem eu podia papear pro tempo passar mais rápido já estavam fazendo isso com outras que não conheço. Aí escolhi uma das mesas na praça de alimentação e fiquei na minha tomando um refrigerante de leve fornecido pelas sorridentes moças do buffet na espera do início da cerimônia. Quando vi a movimentação tratei de ficar próximo da entrada das salas. Chegando lá reencontrei Luiz Joaquim e achei Carol Ferreira, quem deu sinal verde ao VÁ E VEJA para prestigiar o evento. Eu pensava que nunca tinha falado com ela pessoalmente, mas nos reconhecemos de outras ocasiões. Foi Luiz também quem disse algumas belas pelavras em homenagem a Fernando Spencer, uma pessoa de importância e influência determinante para o cinema e a crítica cinematográfica de Pernambuco. Spencer estava presente, recebeu uma placa da organização do cinema e falou emocionado sobre um pouco da sua trajetória. Foi ele quem trouxe o conceito de sessão de arte para o Estado. Antes mesmo da cerimônia terminar, a atenciosa Carol me chamou e indicou as salas 1 e 2 onde MARIA seria exibido, já que na 3 rolaria a exibição de um documentário sobre o homenageado. Agradeci e me joguei dentro da sala para assistir ao meu primeiro Abel Ferrara no cinema. A noite já era inesquecível por si só, mas ver o "Directed by Abel Ferrara" numa tela grande me deu uma sensação de prazer cinéfilo comparável apenas ao que tive quando vi "Directed by George A. Romero" na mesma maneira há quase dois anos atrás com TERRA DOS MORTOS.


Não é nenhum exagero dizer que MARIA é o mais religioso de todos os filmes da filmografia de Ferrara e até mesmo o mais melodramático. Mas não se preocupe muito com isso, pois com o nosso camarada nós estamos em terreno seguro. E outra vez temos um elenco afiadíssimo pelas mãos do diretor que é composto desta vez por Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine (em seu segundo Ferrara) e Heather Graham. MARIA tem seu foco maior em três personagens. Tudo está ligado a ESTE É MEU SANGUE, um filme sobre Jesus Cristo dirigido pelo cineasta e ator Tony Childress (Modine) onde ele mesmo faz o protagonista. Childress se prepara para a série de protestos que o seu novo projeto irá receber, pois está crente de que seu novo projeto fará sucesso e polêmica. Binoche interpreta uma atriz chamada Marie que interpreta Maria Madalena no filme de Childress que abandona a sua carreira após os términos das filmagens para viver em Jerusalém pelo fato da personagem ter lhe influenciado bastante. Já Whitaker é Theodore Younger, apresentador de um programa de entrevistas no horário noturno que tem como justamente Jesus Cristo como tema principal. Ele faz de tudo para conseguir o que quer, devendo até uma merecida assistência à sua esposa Elizabeth (Heather Graham, dando um tempo nos besteróis...) que está no final de sua gravidez e pode ter o bebê a qualquer momento.

Muitas vezes fico achando que sou novo demais pra gostar de Ferrara, mas eu acredito com forte convicção de que que ele é um dos poucos diretores realmente especiais da atualidade. É através dos três personagens principais que Ferrara lança uma série de questionamentos e parece falar com o espectador sobre as questões que mais lhe atormentam, utilizando-se de uma sinceridade admirável. Quem curte cinema sabe que esse diretor nova-iorquino tem raízes católicas, mas sempre quando pode ele dá uma alfinetada em sua própria religião pelas coisas absurdas que até hoje ela prega. Eu sou católico de criação e a julgar pela minha última frase dá pra perceber que concordo com ele em alguns pontos.


Eu não sei dizer se MARIA deveria ser mais visto pelo público, já que o estilo narrativo de Ferrara não é nada caracterizado pela linearidade. Enquanto a ação vai rolando, há várias intervenções de cenas do próprio filme de Childress dentro do filme e do programa de entrevistas fictício de Theodore onde vemos vários teóricos e estudiosos reais nos transmitindo informações dentro do tema (evangelhos apócrifos e outros mais). As atuações de Binoche, Whitaker e Modine podem ser consideradas algumas das melhores de suas carreiras, mas quem dá show mesmo são os dois últimos. Modine tem menos tempo de participação no filme do que eu gostaria, pois ele compreendeu perfeitamente quem era aquele personagem e a sua última cena dentro de uma sala de projeção eu considero desde já ficará um dos melhores momentos da filmografia de Ferrara. Digo o mesmo da espantosa cena de Whitaker na igreja com um arrepiante close da imagem de Jesus Cristo na cruz. Não pude deixar de reparar no rapaz que estava ao meu lado junto de sua esposa ou namorada. Lágrimas caíam copiosamente do rosto dele neste momento. Isso que é cinema!

MARIA é um filme difícil, intimista e de ritmo lento, apesar de durar em torno de 1h30min. Ele consegue ser religioso, sem ter uma visão doutrinatória desse tema tão difícil de se lidar. Ele consegue ser forte, provocante e incômodo da mesma maneira que os melhores filmes de Ferrara usando menos de 0,5% da violência física presente neles. Enfim, MARIA é nada mais nada menos que uma emocionante obra de arte. Já estará no meu top 10 de vistos no cinema em 2007, mesmo tendo demorado dois anos para chegar aqui no Brasil.

Agradecimentos à organização do Cinema Rosa e Silva e Carol Ferreira pelo apoio e a Fernando Vasconcelos, responsável pelo empurrãozinho que me fez receber a confirmação do convite. Valeu mesmo!

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