quarta-feira, abril 25, 2007

BOCA DE OURO (1963, BRASIL-IL-IL)

Antes da sua abertura oficial, o Cine-PE promoveu uma mostra com três filmes do Cinema Novo no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco aqui em Recife. Não consegui ver o documentário OPINIÃO PÚBLICA do Arnaldo Jabor, um filme que eu tava com alguma curiosidade para assistir por me falarem coisas interessantes a respeito dele. Deixemos Jabor pra lá, só sei que esse último sábado foi uma data a anotar na minha memória afetiva, assim como o dia 17 de setembro de 2005. Memorizei assim:

Sábado, 21 de abril de 2007. O dia em que eu vi o grande Jece Valadão arrebentando numa tela de cinema!


Fazia um bom tempo que eu não saía de casa para uma sessão de cinema com tanta vontade de chegar logo na sala para pegar o meu ingresso e me jogar dentro da sala escura. Encontrei alguns conhecidos e troquei uma rápida idéia com eles, porque no Cinema da Fundaj é impossível não encontrar várias pessoas de sessões anteriores. Com o tempo e sabendo selecionar se você não for muito tímido(a), verá que vale a pena manter contato com algumas.

Nos créditos de abertura de BOCA DE OURO, vemos um pouco da ascensão do protagonista que é um bicheiro interpretado magistralmente por Jece Valadão até a cena em que ele pede a um dentista (Wilson Grey!!) que arranque todos os dentes da sua boca e para colocar uma dentadura de ouro, tornando-se assim o temido marginal de Madureira, no Rio de Janeiro dos anos 60. O filme começa quando Boca de Ouro foi encontrado assassinado e a redação de um jornal manda o repórter Caveirinha (Ivan Cândido, perfeito) e um fotógrafo (Alguém sabe o nome desse ator? Porque ele manda bem com o pouco material de roteiro que teve e queria dar créditos a ele...) para falar com Dona Guigui (Odete Lara, que está linda no filme como vocês podem ver pela foto), que foi uma das amantes do bandido, e tentar extrair informações sobre qualquer crime cometido por Boca que ainda não foi descoberto pela Polícia. É a partir daí que passamos a conhecer o episódio ocorrido entre Boca, Leleco (Daniel Filho) e Celeste (Mária Lúcia Monteiro).

Cínico e amoral são adjetivos que não apenas podem ser atribuídos ao personagem de Valadão, mas também ao próprio filme que revela-se muito à frente do seu tempo justamente por causa da brilhante leitura cinematográfica que Nelson Pereira dos Santos faz da peça de Nelson Rodrigues. Se os créditos não tivessem mencionado de que o filme era uma adaptação de uma peça teatral, eu não imaginaria que ele fosse uma já que a maioria dos filmes do tipo explicitam isso pela ausência de cenários, poucos atores e outras caracterísitcas. Enquanto eu via Valadão detonando em momentos antológicos, ficava pensando no motivo pelo qual o cinema brasileiro de longa-metragem não tem mais personagens assumidamente machistas e cafajestes como o Boca e cenas escritas como a do "sorteio" do colar. Falta mais coragem e ousadia nos filmes de hoje, coisa que esse puta filme de 1963 tem de sobra. Também pudera, com leis de incentivo que só aprovam produções que falam das mesmíssimas coisas do Brasil que são mais fáceis de serem vendidas no exterior. Pelo menos agora parece que esse quadro vai mudar. Ainda tenho esperança de que um bom filme feito para o povão será feito no Brasil e não episódios de novela global filmado em scope com aquelas mesmas caras que já estou de saco cheio de ver em qualquer canto que seja no elenco.

BOCA DE OURO é um filme fantástico que merece demais ser redescoberto hoje. Fiquei mais surpreso e feliz do que esperava ao vê-lo no cinema, principalmente pela narrativa que evoca o clássico RASHOMON de Kurosawa (ou é RASHOMON que evoca BOCA DE OURO?? hehe) e pela extraordinária atuação de Jece Valadão que faz os diálogos de Rodrigues serem ainda mais memoráveis. Me senti com orgulho de ser brasileiro como há muito tempo eu não sentia ao relembrar que a gente tinha um filme policial ao mesmo nível dos melhores do gênero.

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