terça-feira, janeiro 30, 2007

O GOSTO DA VINGANÇA ( A Bittersweet Life, 2005)


Coincidentemente, as três últimas resenhas postadas aqui (incluindo essa) foram de filmes orientais. Também pudera, eles estão nos surpreendendo há anos com um cinema de qualidade ímpar, feito por diretores preocupados com uma coisa que cada vez mais está sendo deixada de lado: a arte de contar bem uma história. Até deixei de escrever sobre o belíssimo ZONA DE RISCO (Joint Security Area, 2001) de Chan-wook Park na semana passada para evitar isso, mas tive de me render quando vi SHA PO LANG na última terça-feira.

Lee Byung-hun (que também atua em JSA) interpreta Sun-woo, um rapaz sisudo, violento e de passado obscuro que tem trabalhado por sete anos para o mafioso Presidente Kang (Kim Yeong-cheol) conquistando a sua total confiança. Sun-woo também é o gerente do La Dolce Vita, restaurante de propriedade da organização onde são marcadas todas as reuniões e negociações. Durante um jantar, o chefe ordena que ele acompanhe a sua namorada, uma violinista profissional chamada Hee-soo (Shin Min-a) durante três dias. Caso o jovem perceba a presença sexual de um homem na vida cotidiana da moça, ele deve ligar para Kang ou eliminar imediatamente ela e o companheiro. O porém é que essa tarefa acaba colocando Sun-woo em uma enrascada que despertará toda a fúria vingativa contida no íntimo do seu ser.


Algumas pessoas definiram A BITTERSWEET LIFE como um "Action Noir" e acho que essa definição foi feliz. O filme consegue fazer isso sem qualquer prejuízo para a narrativa e o diretor Ji-woon Kim faz a alegria da gente com uma das melhores e mais memoráveis seqüências de ação corporal dos últimos anos. Ela chega a ser fantástica de tão bem executada e coreografada. Não me lembro de ter visto a cabeça de algum infeliz sendo pressionada e arrastada contra a parede em algum outro filme. Chega doeu em mim na hora hehehe.

Lee Byung-hun encarna Sun-woo com uma naturalidade impressionante e ele me fez lembrar de Alain Delon diversas vezes. O protagonista é um sujeito boa pinta, mas tem cara de poucos amigos e vive muitíssimo bem vestido na maioria das vezes. Soube ontem que Ji-woon Kim se inspirou em LE SAMOURAI de Melville para escrever o roteiro, então a semelhança já está mais do que explicada. Já nos quesitos técnicos, o filme detona. A trilha sonora é um trabalho inspirado e a fotografia salta aos nossos olhos com belos enquadramentos e um uso memorável de cores como vermelho (incluindo o vermelho do sangue que sai dos ferimentos à bala), branco e preto.

O que mais me surpreendeu em A BITTERSWEET LIFE é a maneira como ele fala da vida. Através dos excelentes diálogos travados entre os personagens e das intervenções narrativas do próprio protagonista no início e no fim do filme, fica impossível para um espectador atento a esses detalhes deixar de fazer uma reflexão sobre o quanto ela é imprevisível e injusta na maioria das vezes. Algumas dessas falas são tão marcantes que ficaram gravadas na minha memória, principalmente "A vida é sofrimento. Você não sabe disso?" dita pelo Presidente Baek (Hwang Jeong-min) a Sun-woo. Não pense que o filme seja muito pessimista, há uma correto e muito bem-vindo alívio cômico durante o desenrolar da trama para aliviar esse pessimismo. Os orientais são monstruosos nisso. Takeshi Kitano que o diga.

A BITTERSWEET LIFE é e sempre será um dos melhores filmes sobre esse sentimento que qualquer ser humano já sentiu ou irá sentir algum dia chamado vingança e as conseqüências que ela acaba causando na vida de quem parte para executá-la. O derramamento de sangue pelas mãos de Sun-woo inevitavelmente desencadeará outras vinganças que irão entrar em ponto de ebulição no excelente tiroteio final travado no La Dolce Vita (numa óbvia homenagem ao clássico de Fellini e irônica brincadeira com o próprio título ao mesmo tempo), complementando aquela velha idéia de que a violência só gera mais violência. Ninguém presta neste filme, mas Sun-woo é um personagem tão humano e bem construído que criamos uma empatia com ele e torcemos para o sucesso da sua vingança. Não é à toa que SCARFACE foi outro título que inspirou Ji-woon Kim, um grande realizador que merece ser acompanhado com mais atenção. Preciso aproveitar esse restinho de férias noturnas e assistir A TALE OF TWO SISTERS logo.

Moral: Ao assistir qualquer filme da trilogia da vingança de Chan-wook Park e A BITTERSWEET LIFE, temos a mais absoluta certeza de que não desejamos fazer mal algum a qualquer coreano.

Agradeço ao Otavio Moulin, que fez uma força pro filme ser lançado aqui no Brasil em DVD (mesmo com uma legenda em português que carece de uma revisãozinha na ortografia e gramática em algumas passagens, mas tudo bem... o filme vem com ótima qualidade de som e imagem em WIDE) pela Visual Filmes; ao Leandro Caraça, que sem querer querendo me indicou este filmão no top 10 de 2005 em seu VIVER E MORRER NO CINEMA e a Marcelo Carrard pelo reforço da indicação ao comentar sobre ele no seu MONDO PAURA.

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